Desfazem-se as brumas.E o riso de Aristóteles.

Desfazem-se as brumas.E o riso de Aristóteles.

Descobri a dimensão salvífica do humor no dia da morte do pai do meu amigo Pedro. O pai do Pedro chamava-se Arlindo e morreu dias depois do meu pai, de forma igualmente apressada e sem tempo para preparações. Agosto, mês de dias quentes no Alentejo de cada um de nós, forrou-se de espantos e sofrimentos mudos, de interrogações perante as ausências que a partir daí haviam de nos esperar. Setembro chegou espesso de angústias, dias quentes de um verão esquartejado.

Quando falava de mim aos outros, a mãe do Pedro dizia ‘a’ amiga do Pedro, como se não existisse nenhuma outra. A mãe do Pedro chamava-se Isabel e morrera, três anos antes, num dia de Setembro depois do filho chegar de Paris. Esperei-o, já noite, no aeroporto de Lisboa, tendo apenas para lhe oferecer a promessa do enfermeiro de turno: a permissão para visitar a mãe assim que chegasse. Fiquei do lado de fora da porta, a entrelaçar dedos e aflições, a pensar como estava enganada quando julgava que aquele momento ainda viria longe. Noite escura. A vida acontece sempre mais rápida do que supomos – é esse também o seu modo de se desvelar-. Isabel partiu nessa noite. Suponho, por isso, que perante a morte do pai, Pedro viu repetida a perda dolorosa do seu passado, o extravio da sua infância. E converteu-se a sua imagem no irredutível que existe nos filhos quando deixam de ter pais.

Falam-me os tios do Pedro, no decorrer do velório, daquela morte tão apressada – dois dias, três de hospital e termina-se assim um homem saudável. Comenta-se, pois, o inevitável: a morte do meu pai, súbita, decisiva, inesperada, a deixar-nos mergulhados num mar de perplexidades perante o inefável da existência. Ainda há dias esteve Arlindo presente na missa de sétimo dia em memória do meu pai (rindo-se, à porta da igreja, com o nosso ranking dos filhos órfãos: a Alexandra em primeiro lugar já que, nem pai nem mãe) e agora ali, à nossa frente, fazendo ele o papel de morto. Arlindo tão consternado com a morte do meu pai, tão sentido com a morte do meu pai – eu sem pai há tão pouco tempo que ainda lhe sentia a presença, ainda o ouvia, ainda tinha o seu cheiro espalhado pela minha casa – e agora Arlindo morto, deixando Pedro sem irmãos e sem pais. Foi radical a lesão que a morte nos impôs naqueles dias.

 E perante todos os que lamentavam o inesperado de ambas as mortes, perante o espanto do abrupto em homens saudáveis, Pedro aproxima-se da urna do pai, arrasta-me com ele e diz-me, meio em segredo “Realmente, nunca pensei que o meu pai fosse assim tão invejoso”. E como não consigo conter o riso sonoro perante tal brutalidade, ficamos os dois a rir-nos face ao corpo de Arlindo morto. Ou não dois mas três, porque mais alguém presente. E houve nesse riso um rasgo outro, uma certeza de que os dias escuros arranjam brechas para deixar passar a luz e que essa é a luz que nos salva.

Talvez Arlindo não desejasse outra forma de se retirar do mundo: pudesse ele e havia de fazer uma piada sobre a sua própria morte. Arlindo era dos que sabia que a vida é demasiado séria para poder ser vivida com seriedade. É no humor que as pessoas inteiras se resgatam: sem humor, caminharão pela vida de joelhos, a carne em chaga, viva, exposta. Assustam-me as pessoas sem humor. Não pelo incómodo da sua aridez ou pelo constrangimento que semelhantes presenças suscitam mas pelo embaraço de estar perante alguém que revela tão fraco empenho em tornar a vida num lugar realmente humano.

A engenharia da paternidade ou a alquimia que transforma os bebés em príncipes e princesas

A engenharia da paternidade ou a alquimia que transforma os bebés em príncipes e princesas

 Atento na história do tempo, no decurso do tempo, e não consigo descortinar o momento, o ano, a altura em que os bebés deixaram de nascer. Ao contrário do que poderíamos supor, as maternidades e alcofas, os carrinhos e os colos não acolhem bebés mas ‘príncipes’ e ‘princesas’. Nunca os plebeus contactaram tão de perto com as mais nobres linhagens, nunca o povo se imiscuiu tão facilmente nos meandros de tantos palácios, fortalezas e castelos, corredores de casas reais. Nascendo brazonados, os filhos do povo elevam os pais, se não a Reis, pelo menos a pajens. E é na qualidade de pajens que os pais destes filhos lhes entregam, devotos, a existência. Esforço inglório, porém: a culpa crava-se nas costas destes Pajens que, dando tudo, sentem que muito fica por dar.

Que será então dos Príncipes e das Princesas? Que lhes acontecerá quando o tempo não estica, quando a paciência não abunda e o dinheiro se torna escasso? Que será destes Príncipes e destas Princesas que vivem num mundo de recursos limitados? Desta Realeza, cujos pajens, esgotados pelo esforço do quotidiano, se sentam no meio do chão, olheirentos e esvaziados, a fazer legos ou a pentear bonecas, cumprindo os desejos de brincadeira conjunta dos filhos? E apesar de todas as coisas, apesar de todas as culpas, de todos os esforços, o mais certo é suas Altezas Reais evidenciarem um desvario de carências que parecem não ter fim. Menos graciosos e belos do que Aladino ou a Princesa Aurora, os Príncipes e Princesas de hoje, não vêm de um País de Fadas nem no bico de uma cegonha, resultando, antes, de um projecto maturado. Um projecto pensado e idealizado, um projecto que se pretende livre de falhas. A vida toda ela um projecto de engenharia em que os filhos entram para compor o ramalhete da perfeição.

Projectados que são espera-se, pois, que sejam acolhidos, estes príncipes e estas pincesas, de forma imaculada: uma dúzia de consultas de obstetrícia, ecografias a revelarem a presença da coroa, papelinhos de ecografias com a fotografia do feto e a tradução de tudo em percentis. Resmas de análises: as mães enchendo o bucho de açúcar, para saber se diabetes. Duas horas de tonturas e agonia até à assimilação derradeira mas um sorriso perene. Mostrar-se sempre felicidade e bem-estar é um imperativo transversal a todas as fases da criação do projecto: se acaso a cria estica as pernas até ao esófago deixando os ácidos gástricos da mãe subirem até às orelhas, mesmo que suspeite estar a gerar um pirómano, a gestante mantém, irreprimíveis, o semblante de alegria e jovialidade.

A competência face ao projecto é de tal forma férrea que a sensação de plenitude e felicidade se mantém durante o parto (os gritos são de louvor) e pelos dias que a ele se seguem. O cansaço da parturiente não belisca em nada o empenho em conseguir que o recém-nascido se lhe agarre ferreamente aos mamilos. Se o leite materno é elixir, que venha, a poder de bomba, esse elixir. E o é certo, é que as crias acabam por se fazer ao assunto de tal feita que já vão na mudança da dentição e ainda se escarrancham no colo da mãe para o remate da sobremesa. Elas, felizes que estão com o sucesso dos laços criados, minimizam o impacto físico da questão: sabem bem que, onde outrora existiam seios, residem agora dois pacotes de leite roídos e amachucados, sem ponta de vitalidade ou esperança. Sabem que são ossos do ofício, pelo que, quando dão pelos maridos pasmados a olhar para aqueles dois alforges dependurados é, certamente, pelo orgulho que hão-de sentir em tanta entrega da co-autora ao co-projecto. Pelo menos é o que elas esperam. Que para dizer a verdade com a entrega assoberbada ao projecto, foram-se esquecendo, nos últimos anos, quem era exactamente o marido. Esperem: parece que é Mané. Ou será José? Não, é Mané, de certezinha que é Mané! É Mané, o pobre que espera o regresso da mulher e a aproximação do seu Princípe.

Amanhã estaremos no Paraíso

Amanhã estaremos no Paraíso

Carrega Cristo a sua imensa cruz às costas, a coroa de espinhos cravada na pele, na carne, gotas de sangue pingando. O caminho é longo, sofrido, tortuoso, humilhante. Carrega Cristo a cruz às costas e nesse caminho, o Homem, nesse caminho o Homem e o seu trilho humano : na imagem de Cristo caminhando, a alegoria do caminho do Homem, na imagem da Paixão de Cristo, o sofrimento, a redenção e a dor.

Caminha o Homem vida fora, a cruz servindo-lhe de pele, a cruz que carrega cravada na alma, cravada nos rumos que toma, nas direcções que assume. A cruz acompanhando um caminho tantas vezes forrado a ilusões, forrado a enganos, folhas caídas pelo chão, a vida feita de húmus, de tantos sonhos por cumprir. Caminho uno e solitário o que se encerra em cada cruz, caminho em que a fragilidade do íntimo se transmuta em força última. Talvez na solidão da morte haja o eco de uma música, talvez na quietude final a monumentalidade de um acorde, talvez na eternidade a vibração de um fragmento de tempo.

Impossibilidade absoluta de não haver vida sem Paixão. E contudo a infantilidade rotineira de teimar que a vida se tece por meio de fios fáceis e resistentes, se constrói sobre arquitectura de lego. Basta querer e a vida um desfile mágico de personagens que imaginamos, basta querer e a vida cumprindo-se no meio de sereias e corais, rodeada de mundos maravilhosos, de viagens a locais exóticos – o mundo lá porque nós para o descobrirmos – de casas de sonho onde uma fonte faz jorrar a água que nos tornará imortal. E um frasquinho dessa água sempre connosco, um frasquinho embrulhado num lenço bordado, um frasquinho no bolso de dentro de um casaco. Um frasquinho e nós eternos, os nossos pais eternos, os nossos filhos eternos. Um frasquinho dessa água e nós para sempre, um frasquinho e o mundo abraçando-nos as pernas, agarrando-nos os pés, na voz do mundo uma súplica – “não me deixes” –  nós e o mundo plasmados, sem nós não há mundo que exista.

E na voragem de fingir vida fácil, na intenção cega de fazer disso os dias, a desatenção aos que passam com a sua cruz, o desamparo aos que fazem o caminho calando dores fundas porque a vida não está para os ouvir. Que a dor desse caminho se transfigure em esperança última de uma redenção qualquer, que a alquimia da existência transforme a escuridão solitária do sofrimento fundo em toque divino de luz na alma. Que no fim do caminho longo e solitário, as trevas se dissipem e possa acontecer algum paraíso. Talvez aí aconteça. O que os obstinados da vida prazenteira talvez não saibam é que apenas se chega fazendo caminho.

Carta de resistência. Ao meu pai.

Carta de resistência. Ao meu pai.

(Também em áudio!)

Dizer-te hoje que parte do encantamento das coisas se encerrou com a tua partida. Ou não parte mas muito mais do que parte, pai. Porque a vida mudou por inteiro e nessa mudança houve o desamparo e a noite escura da alma. A tua partida a deixar estilhaços por todos os lados, a abrir-me portas e janelas para pátios sem beleza, para terraços sem luz, para – ainda não o sabia – um longo tempo sem esperança. Viver sem ilusões para contrariar todos os golpes, ser vigilante, manter-me. Discernir o essencial, certificar-me que caminhava na direcção correcta mesmo que sobre as migalhas do meu medo. O silêncio que desejo não se faz de solidão mas de estar sozinho. É de solidão que falo, pai. É sempre de solidão que posso falar quando recordo.

Talvez seja o desencanto aquilo que fica quando são muitas as penas que se arrastam. Aprender a nada esperar e desse nada fazer os meus dias. Tecê-los por dentro e à volta, dar-lhe cores, enfeitá-los sabe-se lá de quê, aprender a fingir: que sou um druida, uma fada, um alquimista capaz de transformar.
Aprender a lição primeira: nunca mostrar fragilidades.
Aprender a lição primeira: quando os tontos vêm pregar, dizer sempre que sim. E manter a distância enquanto se acena com a cabeça.

Mostrou-me a tua ausência um universo desprovido de locais seguros, de linhas que desenham corpos, ombros onde pudesse dormir. Fechar os olhos e descansar, pai. Os teus abraços e a sorte de nunca ter conhecido o desamparo em criança, de nunca ter enfrentado um medo sério porque tu. Revestiu-se a vida de uma nova aridez depois de ti. O tempo a transformar a vida numa outra vida, a transfigurá-la numa peça de teatro onde eu apenas por engano. Enganaram-se no papel, na personagem. Esta sem sonhos não sou eu, não sou esta que olha para a frente sem um feixe de luz a iluminar-lhe o caminho, não sou eu esta que navega sem coletes, sem bóias. Se me empurram, desapareço no fundo do pântano, se me empurram desapareço entre ramos e limos, entre algas. Resistir atando os pés às tábuas mesmo quando águas revoltas. Resistir despida por dentro, oca.

Desconhecer para onde foi a das roupas coloridas, a que se indignava, a que era capaz de espanto. Desconhecer para onde foi a que se iludia, a que se zangava por isso, a que se entusiasmava. Não saber onde a procurar sequer. Hoje, o tempo é outro e a das roupas de cores e dos perfumes de amora, a dos perfumes de limão, sumiu-se lá atrás. Incapaz de olhar para ela, não a procuro sequer.

Inspirar-me me em ti, pai, no teu exemplo. E talvez assim consiga re-inventar este tempo, reescrever a vida, ajudar a dar novas formas a quem delas precisa. E arriscar porque na cercania do exemplo maior.

(Fotografia pessoal)

Ad Eternum

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(Também em áudio)

I

Dora ajeitou as alças do vestido, reviu-se ao espelho, calçou os sapatos vermelhos e saiu. Já era tarde. Teria de ser laboriosa na argumentação que iria usar para entrar na enfermaria, mas durante o trajecto que percorreu até ao hospital pensou muito pouco sobre o assunto. Ocupavam-na outros pensamentos, habitava-a uma angústia mais funda, a tristeza. Terminava tão cedo o tempo de Pedro, terminava tão rápido. Pedro era já a imagem da tragédia, a evocação da transcendência, o nome do mistério já próximo. Dora dividia-se entre a opressão da angústia e o empenho que caracteriza as coisas importantes.

 Foi o taxista que lhe interrompeu a vaga de pensamentos caóticos quando começou a falar. Desinibido de gestos e palavras, tamborilava os dedos sobre o volante, comentando o talento do artista que passava na rádio. Dora ouvia-o mas não conseguiu fixar-se na conversa. Teve antes a certeza de que a casa do taxista cheirava a caixas de bolachas antigas e que a mulher o esperava fazendo renda na companhia de um gato já velho e de um relógio de cuco. Na parede, um prato: “Recordação de Espinho”. Socas da Nazaré em miniatura decorando a televisão. Um franzido na chaminé onde uma colecção de jarras.

Dora. O Pensamento de novo em Pedro. Ocorpo: primeiro a boca, os olhos. As mãos que levemente a agarram, o medo rondando, descendo mudo sobre a pele, o silêncio do olhar. Dora, num táxi, pensado “Hoje ainda lhe toco as mãos, os braços, o quente de pele. Aproximo-me e ainda está. Tão pouco tempo, porém, para deixar de estar aqui… Para onde irá Pedro? Que ponto de interrogação é este que Pedro nos mostra no Fim? E na certeza do fim, o mistério do corpo que cessa, que emudece. Pedro ainda vivo acenando-nos, contudo, do infinito do espaço, do infinito do tempo. Na vida que hoje corre, inscreve-se já a sua ausência.” Dora sabe que o tempo se esgota. Na manhã do dia seguinte, vivo ou morto, Pedro rasgará o céu, rumando à ilha que o espera. Num ápice, Pedro faz-se infinito. Última noite: nunca mais é muito tempo.

                                                                                                                     I I

 Silêncio interrompido. Uma das enfermeiras de turno entra no quarto, confirma a medicação, cumpre os procedimentos de rotina e volta a sair. Máquinas registam os níveis da temperatura, os níveis de oxigénio. O soro gotejante alimenta o ritmo do tempo. Para a doença fatal não há horas. Pedro dorme, descansa na quietude ilusória da doença: a morte tece-o por dentro, construindo, às avessas, um outro de si. O infusor de morfina suaviza-lhe a noite, descomprime-lhe o rosto, pacifica-lhe a existência. Dora chega à janela, olha para a rua. A chuva miudinha goteja os candeeiros, torna-se brilhante ao passar pelos feixes de luz. É de pé, fixando a chuva, que Dora se reconhece livre, que se pensa enquanto tal: sairá dali quando quiser, sem precisar de ajuda, sem necessitar de negociar com o tempo. Dora autónoma, hirta, rasgando a noite, a cidade por inteiro. Dora sem doença, sem morte apalavrada. Dora talvez eterna, o destino lá longe, o futuro tão ilusoriamente certo. Dora viva, e na vida que flui, a existência de Pedro extinguindo-se: a vida que acaba, o corpo, em breve, jazente, o movimento impedido, o ser, único, cessando.

No quarto, a par da dor, o mistério. A morte tece a sua teia, deixa-se intuir: em redor  do corpo em descanso, palpa-se o mistério do fim. E no entanto, o mundo. Nos corredores circundantes, o som de carrinhos passando, macas rolando, vozes sumidas ou sons que chegam em tom mais alto. Uma auxiliar entra no quarto para procurar alguma coisa, remexe papéis, diz “minha filha, sente-se um bocadinho nesta cadeira” e volta a sair. A porta que deixou semi-aberta prolonga-lhe o movimento: entra na enfermaria em frente (talvez procurando o que ainda não encontrou), ajuda um doente a mudar de posição na cama, chama uma enfermeira porque talvez um doente mais queixoso, encosta-se ao umbral da porta para responder, provocadora, aos gracejos de um colega. O movimento do mundo pela frincha da porta
É densa a noite no hospital.

                                                                                                                         III

-“Dora”- É a voz de Pedro que a chama, ou, não a chamando porque a proximidade física o torna desnecessário, apenas a diz. Sentada num dos lados da cama, Dora passa-lhe as mãos pelo cabelo. “Vim para que seja hoje”. É a voz de Dora que trespassa o ar, o cheiro espesso do quarto, a luz ténue da lâmpada sobre a cama. “Para que possas levar-me contigo”. A mão de Pedro desliza-lhe pelo braço, sobe pelo ombro conhece-lhe o queixo, a cara. “Dora”. O Cheiro de Pedro pacifica-a, isola-a do mundo até ficar agarrado à sua pele. O cheiro de Pedro é tão só o cheiro da doença, tão só o cheiro daquilo que o mata. E, no entanto. Deita-se Dora ao lado de Pedro, sobre a roupa da cama. Desvanece-se o medo: Pedro acolhe-a em volta dos seus braços doentes. Dora noiva. E o mundo parado, as horas imobilizadas nas mãos de Dora, poisadas na cara de Pedro, no peito de Pedro, nas pernas. As mãos de Dora viajam, descobrem o azul dos mares.

 ”Olha o meu corpo, Dora. Não posso oferecer-te este corpo, não posso oferecer-te isto de mim” . O olhar de Dora distende-se pelo espaço, a boca engole o terror, a vida desfaz-se em espuma. Pedro. A doença consome-lhe o corpo, a vida e contudo tanto tudo aquilo que ainda está. É na consciência antagónica da ilusão e do irremediável que Dora encontra as únicas palavras possíveis: “ A única coisa que me faz sentido é pensar que até o dia amanhecer teremos toda a vida pela frente”.

                                                                                                                      IV

A maca desliza empurrada pelo enfermeiro, rumo à ambulância que, em baixo, espera. Não há um último aceno, não se disse o último adeus. Dora encosta a cabeça à janela da enfermaria, esperando a maca entrar. No espaço que se estende à sua frente, encontram-se dispersas coisas que não vê: flores que crescem tornadas invisíveis, gatos passeando ao sol, nenunfares no lago do jardim. Dora concentra o olhar na maca que chega, na ambulância que sai pelo portão. Pedro pela última vez. Pedro feito infinito na sua última imagem, feito sonho no corpo que acaba, tornado estrelas na morte que se antecipa. Pedro ainda vivo no tempo, ainda vivo no cheiro que Dora conserva nas mãos, na impressão que deixou com o toque dos seus dedos. Pedro não morrerá perto de si. Sabendo-se no caminho da morte voltou para casa para se fazer mar, para se fundir enquanto cinzas nas águas que amou, no sal que lhe esculpiu o corpo de nadador, na luz das praias que lhe deslumbraram o olhar. Dora não saberá da sua morte, não perguntará por ela nem a terá como notícia. No íntimo de Dora, Pedro será eterno. E na eternidade, onde o encontra, o fim não encontra lugar.

 (Locução de Liliana Fernandes)

Pedacinhos de povo. E um Artista.

Pedacinhos de povo. E um Artista.

(Também em áudio)

Sentadas em volta da mesa, as do costume bebem bicas e galões e bichanam coisas de seu interesse, entre risos sonoros e expressões graves. Se o assunto o justifica, as do costume inclinam as cabeças para a frente, devotas. Os cabelos, demasiado compridos e amorfos, evocam trapos velhos: durante grande parte da vida, as do costume alimentam a ideia de que a beleza dos cabelos é directamente proporcional ao seu comprimento e à capacidade que têm de limpar o soalho à medida que vão passando.

Hospedando os pés em sapatos-ténis de um branco duvidoso ou em botas negras invariavelmente salpicadas de lama, as do costume trajam calças justas que denunciam as suas silhuetas anarcas. Entre os dedos das mãos tiras de queques, unhas de cores garridas, cigarros. Esgueira-se o fumo pela folga entre os dentes escurecidos e pela memória que destas ficou. As do costume expelem nuvens de fumo em absoluta devoção tabágica, e uma há, que assaz seca e hirta, fabrica bolas de fumo num trejeito de maxilar. Parece comover-se, este anjo, com tão mágica criação. Talvez se cuide, nessa hora, fada de um Príncipe qualquer. Quebra-se-lhe o sonho com o embate das bolas de fumo no copo de vidro do galão. E estremece então, gargalhando, voz rouca e ameaçante, numa sucessão de dizeres.

Há sempre, nas do costume, uma que se senta de frente para a televisão, comentando, em voz alta, as notícias mais marcantes e escandalosas que abominam o país. Entre os ditos que vão trocando com as empregadas do balcão, falam sobre a chuva que tanta falta nos faz – os peros já não peros, já não frutos reluzentes e luzidios mas matéria engelhada e deprimida, ameixinhas secas a evocar olhos de míopes sem óculos; as barragens sem pinga de água, o gado à míngua. Os ladrões dos políticos, que só querem encher a mula. Capaz da água faltar nos ribeiros por São Bento ter feito uma ligação directa entre as suas torneiras e os afluentes do Tejo. O país à seca e o Presidente passeando-se, entre ribeiros e peixinhos,  uma praia fluvial no gabinete.

As do costume gostam de falar do “chefe” e do “patrão” como “o chefe “ e “o patrão” e enche-se-lhes a alma com tão soberbo dizer. Dizer “o chefe” e “o patrão” é ser-se subalterno e haver quem mande e ter, portanto, muitas e várias razões para chorar. As do costume gostam de fazer queixinhas sobre as colegas de labor e ser, no que toca aos arrufos, agraciadas pelas do seu grupo. E se uma das suas crianças começa com brincadeiras endiabradas, as do costume gritam, “Tá quieta, minha ordinária” e estalam em gargalhadas, palmadinhas umas nas outras, o orgulho pela velhacaria brilhando nos olhos.

Na hora de pagar, as do costume fazem piadas com a troika e gracejam com o irremediável da crise: a atenção ao mundo que as rodeia não as deixará, porém, por um pé em falso. Olho vivo e a elas ninguém as engana. Devem achar que as do costume se deixaram levar pelo filme vencedor dos Óscares.
-“O Artista” – anunciava a televisão, em repetição. E as do costume, espertalhuças, indignadas perante a alarvidade cometida:
-“Isto é que ganhou? Um filme a preto e branco? Tinham de me pagar bem para eu ir ver uma coisa destas!” -.
Elas, que a sabem toda, fazem horas quando podem mas pelo menos vão ver assim uma coisa jeitosa tipo Jurassic Park em 3D, com direito a óculos e só se houver pipocas  Não é qualquer coisinha que as faz tirar a roupa de trazer por casa aos fins-de-semana.

Mas afinal vocês pensam que enganam quem?

(Locução de Liliana Fernandes)

A magia tão grande deste dia. Alvíssaras a São Valentim.

A magia tão grande deste dia. Alvíssaras a São Valentim.

Temo, desde sempre, com temor gritante, o dia dos namorados. O dia dos namorados é, assim, a celebração do pindérico, o festival do prosaico, a consagração da parvoíce. O dia dos namorados é a feira das colchas de cetim em folhos e um peluche sobre a mesa-de-cabeceira de cor pérola, a dizer “Amo-te fofinha”. Abrir os olhos e “Amo-te fofinha”. Não uma declaração, não palavras ternas, mas um urso ameaçador a ditar a sentença.

 “Amo-te fofinha”. E a promessa de uma vida pejada de fatos de treino, calças de bombazina coladas às ancas, umas botas gastas na ponta, um cinto. Os cabelos lisos – ou não bem lisos mas a fazerem de lisos – cortados a direito, pelo meio do pescoço. São uma chatice estes jeitos na franja, há dias em que fico com isto acachapado à testa e não há nada a fazer.

Idas à bica com os cunhados, uma carteira debaixo do braço onde tilintam as moedas para o pastel de nata. Cheiro a sardinhas que tresando – (raça da pele que se entranha debaixo das unhas e primeiro que saia é uma carga de trabalhos) – mas o domingo é dia para andar à vontade. Pari um filho chamado Márcio e uma filha de nome Yasmin. Ainda me disseram que era nome de contraceptivo mas pronto, de gente bruta não se espera outra coisa. Gosto de Yasmim porque gosto de tudo o que vem das arábias e tenho a mania da dança do ventre. Apesar de andar nas sevilhanas gostava era de ter aulas de dança do ventre. Eu com um véu, a bailar a bailar, havia de parecer uma princesa. O Paulo Jorge até se passava: ele deitado no sofá e eu de roda, a bambolear o pneu. Desde que tive as crianças cravou-se-me esta barriga, não há meio de voltar ao normal. Em chegando a Maio começo com aquilo da seiva. Diz que dá resultado e pode ser que assim dê para usar o biquini do ano passado. Qualquer dia não tenho roupa que me sirva, mas prontos. Oh pá, fosse eu mulher de futebolista e já tinha tudo no sítio: ía à faca, tira aqui, põe ali e já está. Assim também eu. Andava a fazer um migalheiro para por umas mamas novas mas foi na altura em que o Paulo Jorge  partiu o carro todo e lá se foram as economias. E isto agora não está fácil. O Paulo Jorge comprou um telemóvel topo de gama – o máximo – e anda a falar na nova playstation. Diz que é para o Márcio. É para o Márcio, o tanas! É para o Márcio e é para ele, é pior que os miúdos para jogar àquilo. Há fins-de-semana que nem saímos de casa. Às vezes lá os convenço a por aquele concurso das canções: ele faz par com o Márcio e eu faço par com ela, e ali passamos um bom bocado. Se temos amigos lá em casa, jogamos sempre a esse do karaok, fartamo-nos de rir. Não é por ser minha filha, a Yasmim canta mesmo bem. Até me dizem que devia inscreve-la num concurso de televisão. Nunca se sabe, se calhar um dia ainda a inscrevo, que a vida não está para estudos e doutores. Vai andar a queimar as pestanas para quê, para ficar numa caixa de supermercado? Não ando a criar uma filha para isso, era só o que me faltava.

Bom, deixa-me despachar que eu e o Paulo Jorge hoje vamos jantar fora. No dia dos namorados vamos sempre jantar ao chinês. E ele que se livre de chegar a casa sem uma prenda. O ano passado deu-me esta mala com a cara dele estampada de um lado e com a cara dos miúdos do outro. É o máximo, as minhas colegas adoraram. Ainda tenho na cómoda do quarto, o peluche que me deu quando namorávamos: um urso com um coração a dizer “amo-te fofinha”. Quando fico furiosa com ele, é o urso que me vale. Nos dias em que vai ver a bola com os amigos – já se sabe que os homens gostam todos de ir beber cerveja em grupo e arrotar – e se esquece das horas, deito o urso ao meu lado e ali fico a olhar para ele até o sono me vir. Ele a olhar para mim com aqueles olhitos, até parece que me percebe quando falo com ele. E olha, quando o Paulo Jorge chega a tresandar a cerveja, já eu e o urso dormimos e assim só discuto com ele de manhã. E até é melhor, à noite os miúdos estão a dormir e eu quando dou em gritar não sou pêra doce. Mas tem de ser, para andar na linha. Já se sabe como são os homens, são todos iguais. Deus me perdoe, mas um dia ainda viro fufa.

Rua Lopes, 74.

Rua Lopes, 74.

Rua Lopes, 74.

Na mesa da casa de jantar, livros de pintura, lápis, borrachas. Um afia no compartimento do estojo em forma de caixa com um íman ao meio a fechá-lo. São quase horas de almoço. Vou até à cozinha onde a minha avó. Da gaveta da cómoda, a do lado direito, tiro uma bola saltitona que guarda estrelinhas de cores no seu interior. A bola salta em rodopios de saudade, agiganta-se até ao céu onde hoje. Na rádio os senhores falam com vozes vindas de dentro das caixas de botões das capelistas. Vozes escondidas entre novelos de lã, fechos, um babete com rendas. Ao meio-dia, eu e a minha avó à janela. A sonoridade dos carros passando pela rua, o aviso do amola tesouras, sol. Um avião passando baixo e o barulho disso acontecer. Lisboa é também o rumor que anuncia os seus aviões, momentos em que as vozes se abafam. Em baixo, a D. Lúcia, a D. Antónia. A primeira com problemas de visão, a outra, uma mulher magra, hirta, vestida de preto, os cabelos feitos dos fios dos vestidos. A Idalina ao nosso lado – os quintais paredes meias – o maluco por cima, arrastando móveis de um lado para o outro. E a minha avó: “Raça do homem!”, fazendo um estalido com a boca para concluir.

Rua Lopes, 74.

Ao longe, vindo do Alto de São João, alguém descendo a rua. E ainda nem na esquina da padaria e já a minha avó: “Já lá vem” e corria a aquecer o almoço. Eu na janela e o meu avô aproximando-se, fumando. Passo vagaroso, fato completo, chapéu. Uns óculos com uma meia lua nas lentes, as hastes pretas. Nos dedos, um cigarro. “Conheço-o pela maneira de fumar”, a minha avó, garantindo. Eu na mesma janela, sem conseguir avistá-lo, e ela: “já lá vem”. Desconfio que o fumo dos seus cigarros hão-de escrever letras no céu que só a minha avó pode ler.

- “Avô!” – Eu cá de cima, e ele acenando-me para logo de seguida, assim que a porta se abre: -

- “Minha neta!”.

Cheira a cânfora, o meu avô, a essências mentolados que deve guardar nos bolsos dos casacos. O avô, cânfora, a avó, rosas. Quando regressar do trabalho, ao fim da tarde, há-de levar-me ao jardim da Paiva Couceiro. Ele a ler o jornal num banco, eu a deslizar nos escorregas, a voar nos baloiços. Irmos embora porque as companheiras das cartas o aguardam no café. Primeira mesa da esquerda do café do Inácio. Sento-me ao lado, os livros de pintar. Nuns dias, pirâmide de chocolate, noutros, uma bolacha coberta. Aos domingos vamos à Igreja da Nossa Senhora de Fátima e depois seguimos para o parque Eduardo VII. É um mundo, o Parque Eduardo VII. Argolas para andar à roda, escorregas grandes, um lago. Cágados no lago, peixes que verifico domingo após domingo, rãs. Para regressar, apanhamos o eléctrico. Lápis miniatura nos bolsos do meu avô. Se lhe pergunto “avô, o que é isto?”, assegura-me uma aula de ciências, de geografia, de História. Em chegando a casa, enciclopédias, livros abertos à minha frente. Eu abstraída do prolongamento da explicação, a fazer que sim com a cabeça, desejosa que o Vasco Granja a preto e branco viesse servir-me de pretexto.

Rua Lopes, 74

À tarde regamos o quintal. Flores. Hortênsias, margaridas, jarros malmequeres. Morangos plantados ao lado. Salsa, hortelã, a capoeira com as galinhas. Eu: “Dois ovos” – correndo a chamar a minha avó. O galo canta que se farta. Em frente, a estufa onde malvas, xuxus. Bancos de madeira e tijolo onde me sento com a minha mãe. Tenho um ferro comprido e fino para apanhar as lesmas gigantes que habitam os tijolos. Na casinha do fundo, as rolas. O meu avô já sem fato nem chapéu mas em traje de casa, compondo construções não sei de quê. Na caixa de ferramentas do meu avô, moram coisas inimagináveis. O meu avô martela enquanto eu finjo que. Ao lado, malas antigas, caixotes de papelão vazios, dobrados e atados com guitas. O cágado vem cumprimentar-nos e eu dou-lhe bocadinhos pequenos de carne crua. Chama-se Vicente III.

À hora de dormir levo-lhe leite na sua caneca branca com flores azuis. Ele, de volta dos jornais, a ouvir programas sérios na televisão. E nós, silêncio. Para não o vermos, fleumático, a exigir-nos “pouco barulho”. Às vezes passava horas à procura de dois cêntimos. Papéis e papéis e ele “não dou com o gato”. Se acaso se deitava com os cêntimos perdidos, encontrava-os durante o sono. E levantando-se num ápice “Encontrei-os!” e erguer-se de seguida para escrevinhar num papel. Antes de se deitar, para dormir e fazer contas, o meu avô contava-me uma história. Uma única história, igual, dia após dia, e nós dois a chorarmos a rir. Nós rindo e a minha avó rindo de nos rirmos. Se acaso os meus pais na sala ao lado, risos também enquanto ele tirava os óculos e limpar as lágrimas por ser aquela uma história tão alegre. De manhã, faz combóios de pão com queijo para eu comer. Às vezes, carruagens de mortadela acompanhando a composição, apressadas.

É este o comboio em que hoje viajo, avô. Podes ver-me passando por entre as flores do quintal, acenando ao Tó, lá em cima, na sua casa do prédio ao lado; podes ver-me dizendo adeus à Alice e aos 13 filhos que tem. Vê-me agora, avô, viajando entre as nuvens, a avó de conversa com a Idalina, no muro do passadiço. Os meus pais a chegarem do cinema, de mãos dadas, e o meu irmão nas suas brincadeiras sem graça, habituais nas pessoas mais novas que nós. É esse o comboio em que viajo, avô. E ainda que vergada pela inevitabilidade de tudo acabar, ainda que incapaz de ligeireza perante o que deixou de existir, ainda assim, repouso sobre as minhas memórias e embalo-me naquilo que me ensinaste: reter e recordar.

Um arco-íris chamado Sofía.

Um arco-íris chamado Sofía.

(Também em áudio!)

Apareceu pela noitinha, faz hoje três anos, um arco-íris chamado Sofia.

Apareceu pela noitinha.

E iluminou  - sabemos hoje – os bosques dos contos de fadas, as flores mágicas das florestas, os caldeirões de druidas. Sofia não é menina princesa, não é rainha, não é sereia. Talvez quisesse ser fada, Branca de Neve com sapatos de Cinderela, prima-direita de gnomos e anões.

Mas é Sofia, tão só, a soma dos raios de sol batendo em vitrais de mil cores, dançarina de pés pequeninos, centelha mágicas de gotas de luz.

Veio Sofia romper-nos os dias, transpor-nos para o lado cristalino da vida.

Corre muito, este arco-íris, casa fora, atrás dos gatos que abraça – e de escaravelhos se preciso for. E como lhes conhece a linguagem, vence o medo e faz truques: transforma o receio em espanto, em agitação de gargalhadas sonoras.

E pequeninas mãos, doces e misteriosas.

A franja dos cabelos lisos é varinha de condão: rodopia Sofia em bailes de magia, músicas de flautas, castelos de imaginação.

- “Sofia, já dançaste num baile?”

-  “Ainda não, porque sou muito bebé e ainda não tenho Príncipe”.

Enquanto espera pelo Príncipe, cavalga Sofia em universos de algodão. E vive neles, claro está: ao jantar de aniversário, comparecerão Princesas e Fadas, Mágicos vestidos de cores, Meninas com fatos de açúcar, que embalam o menino Jesus.

Maria chama-se Rosa, Jesus, “Muíno Jesus”. João é “meu irmão”: e ele que lhe oferece o colo, nos 6 anos que tem, viaja com ela mundo fora, atento, para não a partir.

Quebrando momentos mais quietos, um ímpeto avassalador invade Sofia. Efeitos da poção mágica que partilha com a prima – a sua Táta muito querida –  e que bebem, de lábios pintados – depois de fervida em chá de hortelã. Armados em poderosos, vão os crescidos ralhar.

- “Mauzinhos” – comenta Sofia, com os seus botões que ganham vida.

Mas se acaso um espelho e sombras nos olhos, saias, sempre saias – para poder “dançar à roda” – reconcilia-se com o mundo e pergunta, já adivinhando a resposta:

“- Não estou linda?”

Sofia, um pião de luz rodopiando. E três velas sobre o nariz do Pinóquio, ( e a Fada Azul para um sopro mágico, em velas que nunca deixará apagar).

(Locução por Liliana Ferreira e fotografia de Pedro Rui Silva)

No marulhar dos búzios, o silêncio. E o meu pai.

No marulhar dos búzios, o silêncio. E o meu pai.

Também em áudio!

Cumprem-se este ano seis anos sobre o dia em que a manhã chegou sem que o meu pai vivo. O dia rompendo, sol, e apesar disso a morte do meu pai. No mundo, apenas essa certeza: o meu pai morto e não saber como fazer para. Não haver vida além do seu corpo imóvel, além do quase sorriso que placidamente lhe ficou na despedida. Estranho, não a morte, mas a impossibilidade de tudo continuar. O meu pai caído numa morte repentina e o mundo igual. No alentejo, campo, animais no campo, flores. O sol de verão abrasivo, queimando até ao momento em que, queimando até à hora de irmos almoçar. O sol que se esconde depois, a noite da vida chegando, a hora de almoço adiada. Ambulâncias em vez de tachos, bombeiros. A espera infinita, o meu irmão sobre o meu pai, tentando. O meu pai morrendo e apesar disso sorrindo. Morrendo a ser pai como sempre, morrendo a sorrir porque se acalmam assim os filhos em pânico. Na morte que chega, escolher o sorriso. Não viu demónios, o meu pai. Viu antes o pânico do filho tentando salvá-lo. E sorriu. E a existência inteira nesse sorriso plácido.

Pai. Não vou falar de saudades, nem falar da falta que. Vou falar de silêncio, do silêncio tranquilo que trazias contigo e que agora não encontro. Tornou-se o mundo tão ruidoso, sempre tão barulhento. Retiro o som ao telefone, fecho a porta do quarto, tento os sítios que suponho sossegados. Não me apetecem, tantas vezes, as palavras ditas, as palavras que tenho que escutar. Apetece-me o silêncio, pai, não o silêncio triste mas o silêncio que era teu: silêncio calmo de existir. Se muita gente, tu desaparecendo por um tempo. Um passeio com um livro, o caminho de um café, dormitando no banco do carro. Livros, jornais, palavras cruzadas. Gramáticas de inglês, matemáticas avançadas, físicas. A mochila preta, de pele, onde lapiseiras e canetas, um compasso. As minas que nunca se partiam e tudo com a tua ordem. O cheiro das tuas coisas. Ainda hoje abro as tuas gavetas e o cheiro das tuas coisas. O mundo da memória pegando-me ao colo.

Nos restaurantes, toalhas de mesa cheias de desenhos, guardanapos. E nós: “agora um camelo”, “agora um elefante”. E elefantes, camelos, girafas, macacos, surgindo. Chitas correndo toalha fora, o empregando assustado:

- Jesus!

e o teu riso de humor refinado.

Em pequena achava que no bolso da camisa do meu pai vivia um busca-pólos. Pouca coisa me encantou tanto nesta vida como a magia do busca-pólos: uma coisa cor das cápsulas do óleo de fígado de bacalhau, que de vez em quando acendia na ponta. Apenas as luzes de natal conseguiam superar a magia do busca-pólos. Tudo o resto, lhe ficou  bem atrás.

Pai. Não vou falar de saudades. Vou falar do desamparo que herdei com a tua ausência. Da sensação de queda lenta e profunda, da vida de dúvidas que já não podiam ser contigo transformadas. A maior diferença entre mim e ti é que tu sabias e eu, demasiadas vezes, não sei. Intuo, ensaio, mas não sei. E viver sem essa tua eloquência, sem o teu sentido preciso das coisas, da justiça das coisas, do lado certo das coisas, é viver num risco novo. Que outrora não conheci porque tu.

Nas ondas gigantes do mar do Pedrógão, nunca arrisquei um banho sem ti. Só entrava na água contigo, pai. Continuo a mesma, pai, o mesmo receio do mar bravo, das ondas que me arrastam para longe. E ainda que a tua ausência dê espaço a turbulências maiores e me obrigue a ser eu o suporte  - mesmo quando não sou mais do que destroços desesperançados pelo chão -, mesmo quando apenas vento frio em alto mar,  apaziguam-me as tuas memórias, sossega-me a tua quietude.

Às vezes adormeço ouvindo os teus passos pela casa, um acender e apagar das luzes que assegura que tudo no sítio.

E pensar no que teria para te dizer se acaso viesses. E perceber que nada urgente para dizer, nada que tivesse de ser dito. Que quando se fala pelo gesto, o silêncio substitui-se à palavra. O teu silêncio cheio de gestos, pai. Esse é o silêncio que não encontro.

(Locução por Liliana Ferreira)