Descobri a dimensão salvífica do humor no dia da morte do pai do meu amigo Pedro. O pai do Pedro chamava-se Arlindo e morreu dias depois do meu pai, de forma igualmente apressada e sem tempo para preparações. Agosto, mês de dias quentes no Alentejo de cada um de nós, forrou-se de espantos e sofrimentos mudos, de interrogações perante as ausências que a partir daí haviam de nos esperar. Setembro chegou espesso de angústias, dias quentes de um verão esquartejado.
Quando falava de mim aos outros, a mãe do Pedro dizia ‘a’ amiga do Pedro, como se não existisse nenhuma outra. A mãe do Pedro chamava-se Isabel e morrera, três anos antes, num dia de Setembro depois do filho chegar de Paris. Esperei-o, já noite, no aeroporto de Lisboa, tendo apenas para lhe oferecer a promessa do enfermeiro de turno: a permissão para visitar a mãe assim que chegasse. Fiquei do lado de fora da porta, a entrelaçar dedos e aflições, a pensar como estava enganada quando julgava que aquele momento ainda viria longe. Noite escura. A vida acontece sempre mais rápida do que supomos – é esse também o seu modo de se desvelar-. Isabel partiu nessa noite. Suponho, por isso, que perante a morte do pai, Pedro viu repetida a perda dolorosa do seu passado, o extravio da sua infância. E converteu-se a sua imagem no irredutível que existe nos filhos quando deixam de ter pais.
Falam-me os tios do Pedro, no decorrer do velório, daquela morte tão apressada – dois dias, três de hospital e termina-se assim um homem saudável. Comenta-se, pois, o inevitável: a morte do meu pai, súbita, decisiva, inesperada, a deixar-nos mergulhados num mar de perplexidades perante o inefável da existência. Ainda há dias esteve Arlindo presente na missa de sétimo dia em memória do meu pai (rindo-se, à porta da igreja, com o nosso ranking dos filhos órfãos: a Alexandra em primeiro lugar já que, nem pai nem mãe) e agora ali, à nossa frente, fazendo ele o papel de morto. Arlindo tão consternado com a morte do meu pai, tão sentido com a morte do meu pai – eu sem pai há tão pouco tempo que ainda lhe sentia a presença, ainda o ouvia, ainda tinha o seu cheiro espalhado pela minha casa – e agora Arlindo morto, deixando Pedro sem irmãos e sem pais. Foi radical a lesão que a morte nos impôs naqueles dias.
E perante todos os que lamentavam o inesperado de ambas as mortes, perante o espanto do abrupto em homens saudáveis, Pedro aproxima-se da urna do pai, arrasta-me com ele e diz-me, meio em segredo “Realmente, nunca pensei que o meu pai fosse assim tão invejoso”. E como não consigo conter o riso sonoro perante tal brutalidade, ficamos os dois a rir-nos face ao corpo de Arlindo morto. Ou não dois mas três, porque mais alguém presente. E houve nesse riso um rasgo outro, uma certeza de que os dias escuros arranjam brechas para deixar passar a luz e que essa é a luz que nos salva.
Talvez Arlindo não desejasse outra forma de se retirar do mundo: pudesse ele e havia de fazer uma piada sobre a sua própria morte. Arlindo era dos que sabia que a vida é demasiado séria para poder ser vivida com seriedade. É no humor que as pessoas inteiras se resgatam: sem humor, caminharão pela vida de joelhos, a carne em chaga, viva, exposta. Assustam-me as pessoas sem humor. Não pelo incómodo da sua aridez ou pelo constrangimento que semelhantes presenças suscitam mas pelo embaraço de estar perante alguém que revela tão fraco empenho em tornar a vida num lugar realmente humano.

