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Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de me comover. O sofrimento humano naquilo que tem de irredutível, naquilo que tem de (in)consciência, o sofrimento que que se sente infinito pela intensidade do sentir, pela capacidade  do Homem em de transformar o momento no eterno.

Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de comover. Mudei, contudo, a minha perspectiva. Hoje, a dimensão mais capaz de me comover, a mais capaz de me arrebatar, é o esforço – a força da vontade humana que permite alterar condições prévias, inerências, obviedades – a força da vontade transformadora, a persistência, a esperança, o empenho, a fé.

Há uns meses baptizámos o Miguel – e houve nesse gesto a minha pertença mais profunda. Se alguma coisa intento deixar da minha experiência de existir é talvez, e tão só, o esforço consciente de me transformar e a intenção de deixar como exemplo a mudança.

Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de me comover. Hoje o meu olhar recai sobre a renovação e sobre a beleza que advém do novo, do outro do homem que se ilumina quando nos abrimos às provas maiores – o amor, a humildade, o perdão. Morte e ressurreição.

Cristo revela-nos os nossos dois lados – o lado humano, da matéria e dos medos, o lado do sofrimento, o lado da carne, o lado das tendências e do hábitos, o lado dos desejos, das provações e da deformação – e o lado divino, do brilho e da luz, o lado da força, do amor e da leveza, o lado que transcende e se transmuta, o lado que se leva e se torna maior. O processo crístico é prova do caminho da transformação. Cristo transformou o medo em coragem, a dor em amor, o sofrimento em esperança. A experiência humana será sempre experiência de sofrimento. E também Jesus, na sua humanidade o teme:
“Pai, se for possível, afasta de mim este cálice”.
Mas Cristo vai além da sua humanidade, forjando as possibilidades da coragem e da Fé.
E ainda assim a dúvida -“Pai, porque me abandonas?”
E ainda assim o perdão – “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.
E, sobretudo, o amor na morte – o amor e não azanga, a raiva, a indignação. Na morte de Cristo fica o amor e a transformação.
Em cada um dos nossos dias é isso que nos é pedido – amor e transformação – o ponto do equilíbrio, o fio da navalha. A consciência do caminho nem sequer o facilita- às vezes há o humano cansaço e a sensação ilusão de tudo ser já bastante. Mas também há o amor e a luz, a iluminação. Cristo não me salva por se ter realizado. Cristo salva-me pelo exemplo da realização, pela inspiração – essa Bem-aventurança que os dias de densidade tendem a fazer desvanecer. Que haja pois consciência em cada dia, que haja foco, trabalho e esperança. Cristo é o Meu Mestre do Amor – Primeiro Mestre.

mor – Primeiro Mestre.

Azul Celeste Claro

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Quanto de mim nos dias sem Pai?
Arrumo-me há mais de uma década, todos os dias, na tentativa de uma superação qualquer – bocadinhos de memórias que se colam às paredes do coração, ao miocárdio, bocadinhos de memória a lembrarem-me – o que fui?

Há dias, alguém para mim – como consegues, depois de tudo?
– Como consigo, o quê?
– O equilíbrio.
O equilíbrio. Fechar os olhos e deixar-me cair. Ser primeiro a vertigem da terraplanagem – um avião. Planar no alto, rasar a superfície: os rios, os mares, as planícies e as montanhas. Rasar as searas, rasar as cidades grandes e os países longínquos. Aproximar-me num sopro, ganhar altura, deixar-me cair outra vez. Eu no quintal dos meus avós em Lisboa – brincar às floristas – hortenses, margaridas, jarros, jasmins. Sentar-me debaixo da estufa com os cadernos de escrever – os xuxus dependurados num aceno. Entreter-me a tirar as lesmas dos tijolos que separavam os canteiros – o canteiro dos morangos o meu preferido, o canteiro da salsa, da hortelã. Lesmas gigantes nas noites de calor. Esperar que o meu avô regressasse do serviço para regar o quintal. À noite o meu avô acordava depois de ter descoberto os cinco tostões. Páginas e páginas de contas e o meu avô, dias a fio, à procura de cinco tostões. Páginas e páginas de contas de fábricas que deveriam bater certo e contudo cinco tostões. Dias em que cinco tostões perdidos nas folhas, escondidos por detrás das linhas dos papéis e o meu avô a acordar a meio da noite:
– Já dei com o gato – e apontar a revelação num caderninho.
O cérebro do meu avô feito de aritmética. A minha avó – “o avô faz contas até a dormir”.

Ganhar altura outra vez. Morreram-me quase todos os que me tinham amor incondicional. Ganhar altura de novo, deixar-me cair – uma voragem-terraplanar. Mãe. Os laços que me ancoram à vida em que fui o que sou. Um dia encontro-me criança outra vez – eu plena. A minha mãe levando-me pela mão em direcção a casa. A minha casa – morreram-me quase todos os que me tinham amor incondicional. Tanto de mim pelo caminho –arrumo-me aos bocados, colo peças, refaço sentimentos.

Na noite em que o meu pai morto, perdi realidade corpória. A Rosário –  ao amanhecer dessa noite, na igreja – “tens menos cinco kg do que ontem”. A questão da vida.  Existir na certeza do desaparecimento. A morte enquanto tragédia, enquanto desamparo. Eis-me face à morte:  desamparada no sofrimento de estar viva e conscientemente só. Dar voltas sobre a solidão – não bem solidão mas a consciência de que sozinho, por não haver outra forma. A amputação da integridade do ser, a amputação da conservação – em todas as mortes, em todos os abandonos, em todos os desaparecimentos, em todas as injustiças, em todas as traições, a amputação da conservação. A vida advém da capacidade reconstruir e conservar.

O equilíbrio.

Em todas as tragédias há o humano desamparado no seu sofrimento de estar vivo e conscientemente só. Arrumo-me há mais de uma década, aos bocadinhos, dou-me forma – colo-me peça a peça, enfeito-me por dentro, ensaio um sorriso, encaixo os ossos das ancas, faço-me resistência. Num carnaval de criança, quis disfarçar-me de céu. Um tule azul Celeste, uma meia Lua na cabeça, estrelas douradas sobre as vestes. O equilíbrio – contar as estrelas, saber que sou todas elas. A voragem das noites, dos dias, o tempo do espaço e o espaço do tempo. Um dia dissolvo-me no universo, rodopio internamente a ganhar velocidade, saio pelo topo da cabeça e faço-me pó de estrela , pó de céu, pedacinho encantado de lua.

Estar neste mundo mas não ser deste mundo. Morreram-me quase todos os que tinham por mim amor incondicional. O que me prende à vida são os laços – só o amor nos salva. O equilíbrio. A vida tem, em si, a promessa da tragédia – o esforço de vida é o esforço da felicidade, é o esforço da transformação da dor em brilho e em luz. A tristeza traz-me frio. Um dia experimentei a raiva e as lágrimas ácidas que queimam os olhos. A raiva consome, esvazia os olhos de vida e torna baça a pele. Felicidade é trabalhar a raiva, transformar a ira e apaziguar o coração. Felicidade é uma borboleta no peito e haver esperança, é sermo-nos bastantes enquanto sustentação, é não nos deixarmos ficar. Felicidade é o desafio que se coloca para lá do ponto limite – abrir asas e voar. Felicidade é tranquilidade e disciplina, é libertarmo-nos de amarras por dentro. Felicidade são os balões amarelos que o Miguel leva para a escola. Felicidade é ir buscar os ovos ao galinheiro enquanto o meu avô trata de assuntos, na casa do fundo do quintal. Felicidade é esperar os meus pais à janela, contar-lhes os passos, ouvi-los entrar. Felicidade é ouvir a minha avó e admirar-lhe a compreensão sobre o lugar das pessoas na vida. A minha avó, uma maestrina de existências. Celeste Hortense. Felicidade é poder continuar a disfarçar-me de céu. Felicidade é fortalecer-me, é viajar de balão, é conter o medo e o sopro do vento, é resistir às intempéries, é saber mergulhar numa onda gigante, é ser uma menina fada numa noite estrelada.

 

Existir em Azul Celeste Claro e uma lua na cabeça.

A redenção

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A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. As pessoas e as circunstâncias das pessoas e alguma coisa nelas que nunca soube explicar mas que sempre me provocou uma espécie de dor ou um sufoco – um amarfanhar de mim que apenas experienciava sem lhe conhecer a natureza ou a origem ou o intuito.

A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância, existiu sempre associada a um imperativo de aconchego  – o meu quarto e a existência de livros e música e lápis e papel – recolher-me no quarto e aquietar-me na almofada ou pintar desenhos a lápis de cor ou ler os meus livros ou pegar nos cadernos e por-me a escrever. Aprender a pensar tentando encontrar a palavra certa para o pensamento, a palavra que descreve o  universo que vem do sentir- escrever como forma de dar forma e aí me resguardar.

Em criança também fazia bonecas de trapos – desenhava-lhes os fatos nos tecidos, recortava-lhes o corpo e enchia-as de algodão. Cosia-as, depois, antes de lhes construir os cabelos em lã. Pintava-lhes os olhos, o nariz, ensaiava-lhes um sorriso. Uma boneca chamada Leila, que me acompanhou tempos fora – as calças  em verde alface, a camiseta de flores. A boneca Leila a servir-me de companhia e eu alegre com isso. A boneca Leila nunca me deu vontade de chorar e o boneco André apenas me afligiu quando teve um problema no botão que lhe permitia rodar o pescoço. O boneco André era bastante meu amigo e cordato e não me fazia sentir mal com falhas que não eram minhas.

Ao contrário da boneca Leila e do boneco André, as pessoas especializam-se em fazer surgir nas outras uma pontinha de culpa por fraquezas que são delas. Ao contrário daquilo que sempre ensinei à boneca Leila e ao boneco André, as pessoas crescidas não são todas adultas e responsáveis e sapientes de todas as coisas que são importantes. As pessoas crescidas são, muitas vezes, crianças caprichosas que cresceram e que por via do crescimento se presumem grandes e sérias. A grande diferença entre o que fui em criança e o que sou no tempo presente é que hoje consigo identificar a origem da sensação que desde sempre me acompanha:  aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é a agressão – expressa ou latente, nas suas palavras e nas suas acções. Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é o ímpeto e a pressa e viverem cheias de coisas que não servem de alegria para ninguém. Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é a rudeza dos modos e a dureza do coração.

Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar vem de longe  – na cabeça das crianças os adultos não falham, pelo que, se falham com elas é porque elas os levam a falhar. Criança nenhuma concebe que os adultos que cuidam de si possam ter fragilidades de todo o tipo – as crianças necessitam de quem faça de escudo entre elas e a vida, entre elas e o mundo, pelo que os adultos são fortalezas inquebráveis, não falham : as falhas vêm sempre das crianças e com as falhas, a culpa.

A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. As pessoas e as circunstâncias das pessoas e a facilidade com que educam para a culpa ao invés de educarem para  a possibilidade de perdoar e para o pedido de perdão. As pessoas educam para a culpa e as crianças são os melhores alvos dessa educação: nenhuma criança concebe que os adultos que cuidam de si tenham falhas, logo, perante tudo o que corre mal, a culpa é sua. Educar as crianças para as suas falhas e para o medo de errar é educar pessoas para a defesa e para a agressão.

Talvez o melhor de nós seja aquele que se concentre em fazer florescer o melhor lado dos outros ao invés de se demorar nas suas falhas e fraquezas, talvez o melhor de nós seja aquele que, ao invés de apontar a fragilidade do outro, trabalhe sobre si, talvez seja aquele que, sabendo-se fraco porque humano, aceita a sua condição mas não desiste de se transformar. Talvez o melhor seja aquele que não se aquieta, aquele que se sabe além.

A sensação que mais profundamente me acompanha desde a infância, é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. A grande diferença entre a minha idade de ontem e a minha idade de hoje, reside na capacidade que hoje detenho de identificar a natureza dessa sensação – as pessoas dão-me vontade de chorar porque ainda não as aceito profundamente e por isso ainda me quedo ali, no lado mais sombrio que mostram, à espera que um dia mudem.

Avisar a boneca Leila e o boneco André de que é ao contrário que as coisas se fazem: perante a fragilidade desenvolvamos força, perante a alteridade desenvolvamos tolerância, perante a agressão desenvolvamos capacidade de perdão. Avisar a boneca Leila e o boneco André que isto leva a vida toda e que, por isso, o melhor é pormo-nos os três a caminho.

Do outro lado do espelho

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No quarto da casa dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe. O retrato da minha mãe era grande e não bem a preto e branco mas da tonalidade diferente que é a evocação das cores nos retratos antigos. No quarto dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe e foi na demorada contemplação desse retrato que descobri a minha relação com o sagrado.

No quarto da casa dos meus avós havia, ao lado do retrato da minha mãe, sobre a cómoda, uma caixa de música de corda onde uma bailarina e o som de uma música bela  – creio que um pouco triste.  Foi na experiência dessa música e na contemplação do retrato da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado.

A minha mãe teria uns quinze anos, dezasseis anos – talvez – nesse instante captado,  e sorria um sorriso leve. O cabelo era curto e ondulado, o vestido era branco às bolas e havia na minha mãe a expressão de ideia romântica . No olhar da minha mãe, uma certa adequação à vida ou a adequação bastante para uma existência tranquila. No olhar da minha mãe, a força e a vitalidade das coisas que existem, uma certa perfeição –  foi  da consciência da finitude dessa perfeição de existir que descobri a minha relação com o sagrado.  

Ao contrário do medo, que é sempre relativo a alguma coisa, a angústia advém da experiência da antecipação do nada. Foi da consciência da antecipação do nada, da finitude humana, do impensável que é o não-ser – mais no mundo da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado – o sagrado nessa forma última, transcendente à matéria, ao corpo físico,  o sagrado que consiste em construir com a minha mãe uma relação fundada em laços que contém a imortalidade.

No quarto dos meus avós, o retrato da minha mãe e a experiência tacteada, intuída, de que o problema último, o problema essencial, é posto pelo conflito do amor e da morte.  Talvez porque naquele retrato  um brilho, um certo mistério, talvez porque uma correcta adequação, uma eventual promessa, talvez porque calor lá fora – e a certeza da transcendência para que não morra nunca a minha mãe. O sagrado na minha mãe e a certeza de que a minha mãe não morre nunca, nem hoje, nem sempre, nem nunca mais.

Reside o sagrado na experiência compartilhada, intocável, fundada no amor verdadeiro. Reside o sagrado na beleza da Natureza, na magia dos lugares, no espaço suspenso, imaterial – que é a parte de nós que se eleva quando nos descobrimos por dentro. Reside o sagrado na leveza e nos dias que são sopro, nos dias que são vento. O sagrado no ânimo que habita os homens, no ânimo que habita as mulheres que, ainda que de joelhos, vergados, se erguem sem sucumbir. O sagrado no extraordinário de haver sol e de haver luz – o sagrado no azul celeste do céu. Encontrar o sagrado no passo primeiro para lá do limite – o sagrado no além da dor humana, na ultimidade que é o mistério de cada pessoa. O sagrado na transformação do homem no além de si, na transformação do homem na parte mais elevada de si. Cumprirmo-nos como pessoas talvez signifique viver de tal forma que nos façamos sagrados para alguém – procurarmos na vida os caminhos que nos levem aos outros, encontrando, primordialmente, o caminho que nos encontra. O sagrado na captação da pessoa pela transcendência de um retrato.

As pessoas sem sagrado esvaziam-se e morrem – as pessoas sem sagrado são corpo que sucumbe.

O sagrado que se diz mãe são luzes de tantas cores brilhando para sempre em todos os mundos – mãe em todas as chuvas, em todos os campos, em todos os mares, em todos os peixes, em todos os céus. O sagrado da minha mãe nas cores – tantas cores – de todos os dias.

É no sagrado de existir que a existência se faz realmente humana.

 

 

A Infância é a nossa pátria II

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aquele-abraco-1Aquilo que de mais sólido, perene e imutável o meu pai me ensinou foram os abraços. Silenciosos, sempre, demorados, sempre e sempre profundos. Aquilo que de mais sólido, perene e imutável o meu pai me ensinou foram os abraços e o significado dos abraços, os abraços e a certeza de haver, nos abraços do meu pai, um amor inabalável e, por isso, a permissão para crescer e a possibilidade de errar.

O meu pai zangava-se com os olhos e com o silêncio das palavras e também com o coração. O meu pai zangava-se de forma rigorosa e sem possibilidade de dúvida. Quando o meu pai se zangava, zangava-se  inabalavelmente  e contudo – nenhum erro meu, nenhuma falha comprometeu os seus abraços silenciosos e profundos – abraços demorados que me ensinaram a sustentação que vem da grandiosidade da entrega.

Abraçar é tomar o outro nos braços, é abrirmo-nos à alteridade da sua pele, ao contacto com o seu coração, é tornarmo-nos sustentadores daqueles instantes de existir. Abraçar é conceder ao outro a possibilidade de caminhar pela certeza de ser suportado – a certeza de não haver abandono, de não haver solidão, a certeza da possibilidade do caminho, de todo o caminho, porque há braços que o recebem. Abraçar é fazermo-nos de escudo, impormo-nos entre o outro e a sua aridez, entre o outro e a sua solidão, entre o outro e o seu medo. É tomarmos parte de uma dor, de uma alegria, tomarmos parte da existência que acontece fora de nós.

Os abraços transparecem o mais íntimo de nós, expressam o amor que conseguimos, a generosidade que conseguimos, expressam a parte de nós que oferecemos. Ensinou-me o meu pai a supremacia dos abraços – essa forma profunda de ligação . O abraço que é entrega é também sustentação e alegria e por isso é colo, é embalo, é  força vital de existir ( essa força que me segurava o colchão de água nas ondas imensas do mar do Pedrógão).

Haverá sempre um momento (muitos momentos) em que a vida nos confronta e nos impele à compreensão de que a existência é, na sua forma mais profunda, um exercício de solidão. Diluo o temor dessa percepção, a fragilidade a que essa consciência me conduz, na possibilidade de poder abraçar – o abraço é partilha e é também companhia. Na sua essência de envolvência e protecção, talvez seja a única verdadeiramente possível.

Ensinou-me o meu pai que a solidão se combate com a vivência do gesto que vida fora nos recebe, que vida fora nos acolhe. É essa a experiência que nos sustenta, é essa a vivência maior – mesmo quando apenas existe na memória.

Que seja este, também, tempo de abraçarmos – que seja tempo de nos abrirmos e de permitirmos em nós o melhor de tudo isso. Não é a protecção que nos transforma – o que nos transforma é a abertura à vida, a abertura aos outros, a abertura a diluirmos as nossas fronteiras internas para darmos passos em frente, além de nós, para lá de nós.  Rasgar o véu do desconhecido implica, contudo, a experiência de um amor certo. Ensinar abertura e oferecer amor certo para que seja possível um  outro mundo e uma outra vida – a infância é a nossa pátria.

A infância é a nossa Pátria ( I )

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“A sociedade do Século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas sim uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não, por sua vez, “sujeitos de obediência”, mas  sim sujeitos de produção. São empresários de si próprios”.

A Kelly disse-me, há uns dias, que andava a tentar perdoar os pais pelo facto de a terem medicado em criança. A Kelly tem vinte e poucos anos, é norte americana e foi medicada com Ritalina  numa certa fase da sua infância. Os pais da Kelly , que se impacientavam com a sua agitação, levaram-na ao médico e tentaram encontrar uma solução rápida para a acalmar. A Kelly perdeu energia e ganhou uma certa ferida, uma dor. O que a magoa, diz, é perceber que aquilo que sempre  faltou aos pais foi paciência – paciência e tolerância para com a Kelly em crescimento e transformação. “Se tivessem esperado” – diz  -“ não teria sido necessário medicação nenhuma porque aos 10, ou 11 anos eu acalmei naturalmente”.

A Kelly sabe hoje que os pais fizeram o seu melhor, sabe hoje que os pais – todos os pais – são pessoas como as outras e que por isso cometem erros, sabe que é preciso perdoar ressentimentos e mágoas para poder avançar. Hoje está alerta – a Kelly também sabe que durante muito tempo fez tudo para magoar a mãe, para maltratar a mãe. A Kelly hoje tenta entender. Mas é ágil a diagnosticar o problema: a impaciência dos pais face à necessidade de darem  tempo aos filhos para que cresçam e a incapacidade dos pais olharem os filhos como seres autónomos, diferentes de si, apartados de si.

Kelly faz esse esforço de reconstrução, anos passados, anos depois.

A impaciência dos pais de hoje. Os pais, construtores de uma sociedade em que as crianças frequentam obrigatoriamente o pré-escolar ( tendo as 9:00h como hora limite de entrada). A impaciência dos pais face ao ainda ser criança dos filhos e a impaciência das escolas face ao ainda ser crianças dos alunos – meninos e meninas de 10, 11 e 12 anos com horários diários de saída às 18:25h, meninos que passam tanto tempo na escola quanto um adulto num emprego – meninos e meninas sem sindicatos porque está tudo bem quando o que conta é a aposta no futuro. Crianças carregando mochilas cheias de muitos kgs de livros, passeando  contracturas musculares de crescidos e tensão cervical passível de gente grande. Meninos e meninas  que aprendem inglês desde os 3, desde os 4 anos, crianças a quem se acha muita graça quando exibem as suas competências precoces e reiteradamente estimuladas.  Crianças que se querem  competentes, talhadas para o empreendimento e para o sucesso no empreendimento. Crianças bombardeadas  pelo excesso – excesso de estímulos, informação e impulsos, em preparação para responderem, de forma  rápida e eficaz, a exigências múltiplas . Silêncio face à abertura, à forma de receberem o universo e os outros, silêncio face à generosidade e à gratidão.

A impaciência dos pais face aos erros dos filhos – os erros catalogados como falhas e não como possibilidades reais de aprendizagem. A impaciência dos pais face aos erros dos filhos porque os pais impacientes face aos seus próprios erros, incapazes face às suas falhas. O amor próprio esvaindo-se pelo orifício do erro, o terror face ao não ser capaz – ser muito mais fácil gostarmos de nós quando não nos encontramos falhas, tão mais fácil gostar dos outros quando não aparentam erros (tão ideais os filhos que  contribuem para o sucesso dos pais na sua competência de pais).  

Pais fragilizados,  concedendo aos filhos a ilusão de uma segurança que na vida não existe (porque na vida também há frio e fogo e morte e neve), pais  em  vigilância permanente, afastando os filhos de todos os perigos exteriores quando, na verdade, o perigo primeiro, o perigo número  um, é aquele que nasce no seio, no âmago, no íntimo da vítima que se vê como responsável pela sua condição. O perigo primeiro reside, hoje, na possibilidade real das crianças verem  o seu sofrimento  como consequência da sua falha – e logo da sua humanidade –  e por isso se exponenciarem em competência, em dureza, em fechamento e em cegueira.

Crianças super- ocupadas, programadas e competentes, crianças super-protegidas e debilitadas, sem mundo próprio de crianças, sem arco-íris no dedos,  vazias da magia que, vida fora, as poderá  segurar – a infância é a nossa pátria.

Indica-nos Kelly  o descaminho, o caminho árduo.

                                                                                                                                                                                        

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Do tempo e do abrandamento

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“ A nossa maior crueldade é o tempo. Como um fabricante de armadilhas desajeitado que acaba sempre prisioneiro das engrenagens que produz, também nós inventamos o tempo. Os nossos relógios nunca descansam. Quantas vezes o tempo é a nossa desculpa para desinvestir na vida, para perpetuar o desencontro que mantemos com ela?”

José Tolentino de Mendonça

 

A questão do tempo coloca-se, no mundo contemporâneo, de forma pungente, quase absoluta. A possibilidade de um progresso científico imperativo e ilimitado, a permanente inovação tecnológica, a ideia de que vivemos para sermos agentes de produção e consumo, suprimem-nos o ritmo biológico, invertem-nos os pressupostos da existência e, apesar de contribuírem para o aumento do conhecimento concorrem, de igual modo, para a morte da sabedoria. A sabedoria vem do lento do tempo e da possibilidade de maturação da experiência, vem do vagar dos sentidos e da paciência da descoberta, vem do repouso do conhecimento e da espera que o conhecimento se revele.

A ideia de tempo vem a par da ideia de futuro, o tempo realizável na possibilidade da acção. Somos, hoje, indivíduos de acção, estimulados à acção e dignificados pela acção. Consideramo-nos vivos quando contemplamos a possibilidade de um futuro, a possibilidade de termos tempo e capacidade para fazermos coisas. O mundo moderno plasmou-nos a vida na acção que ela permite, na realização do fazer. Aquilo que fazemos, o trabalho que executamos, parece totalizar aquilo que somos. Afunilamo-nos nas nossas competências, aumentamos exponencialmente e a toda a hora o nível de exigência sobre o nós e sobre os outros – fazer tudo mais rápido, sempre mais rápido e melhor. E contudo.

Conheci o Patrício três meses antes da sua morte e acompanhei-o nesse tempo outro que é o caminho do fim. Ao 26 anos, doente de uma doença rápida e irreversivelmente mortal, inesperada e avassaladora, o Patrício concedeu-me a possibilidade de tocar o seu íntimo, concedeu-me a sua mão e o seu olhar –expectante e profundo, assustado e profundo, revoltado e profundo – e permitiu-me o silêncio. Não o silêncio perturbador que advém da falta de adequação das palavras, mas o silêncio que advém da consciência de que é possível anular o tempo quando existe verdadeiramente um encontro.

O Patrício estava a morrer e eu estava grávida e visitava-o ao fim do dia ou nos intervalos do meu trabalho, no IPO. O Patrício tinha uma sonda nasogástrica,  não comia há várias semanas e via o corpo que fora atlético e robusto, definhar . O Patrício punha os olhos no tecto e fixava o tecto e perdia-se no tecto, escutando a morte que se tecia dentro de si. Quando eu chegava para estar com ele, o Patrício pegava-me na mão e perguntava se eu tinha comido e dizia, invariavelmente “tens de te alimentar”. O Patrício tinha 26 anos e estava a morrer e não comia há semanas e tinha saudades do sabor das uvas e da melancia e pegava-me na mão e dizia-me “tens de te alimentar” – e eu comia uvas e melancia com ele e passava-lhe bocadinhos de uvas e melancia nos lábios. Depois ficávamos em silêncio, eu olhando a janela, sentada na sua cama ou no cadeirão ali ao lado, ele dormitando, talvez.

O Patrício era feito de mar e tinha saudades do mar e eu ía até à praia e trazia-lhe água do mar e areia da praia. O Patrício colocava os pés na água e a areia nas mãos e ficava feliz com esse bocadinho de vida e essa experiência de estar vivo. O Patrício era nadador salvador e antes de morrer quis voltar para a Madeira, sua ilha e sua casa. No dia em que me despedi dele, sentado na cadeira de rodas antes de entrar na ambulância que o levaria ao aeroporto, sabia que era para nunca mais. E apesar de toda a tristeza houve a pacificação de ter estado, de ter sido possível a revelação da intimidade humana no sofrimento,  na experiência do cuidado, no silêncio, nas suas mãos que me acolheram e protegeram também.

 

O Patrício morreu poucas semanas depois, no hospital do Funchal, acompanhado pela família e na companhia da Cátia, o seu amor. Dois anos mais tarde visitei a sua família e a sua casa, visitei o seu quarto decorado com âncoras e  bóias e barcos e ossos de baleia. Visitei o seu quarto mantido exactamente como o tinha deixado na última saída para o hospital. Sobre a sua cama, a minha fotografia, anulando a morte e o tempo, mostrando-me, de forma plena, que o maior da existência  reside na forma como nos abrimos e nos entregamos – que é na experiência de sermos que reside o nosso maior contributo, a nossa maior oferta.

Abrirmo-nos a ser – pacientes e silenciosos – não é, contudo, o espírito deste tempo – o espírito deste tempo é o da voracidade e do turbilhão, do atropelamento da reflexão e dos sentidos.  Saber abrandar o tempo e desacelerar o ritmo, saber descobrir os dias e o momento, é o imperativo deste tempo – que a grandeza do Patrício nos sirva de espelho.

Uma palavra que nos Sirva de Espelho

 

Foto de Pedro Rui Silva.

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