O Vórtice

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Apoio as mãos no rebordo do poço, inclino-me para a frente, fecho os olhos. Os pés descolam ligeiramente do chão, debruço-me com cuidado – deixo pender a cabeça, o burro estanca a volta da nora – as ovelhas encantam os campos – o barulho dos chocalhos, as rãs coaxando na charca, o Sr. António passando no tractor.

Desde criança que procuro a intimidade das coisas –  o seu silêncio, a sua forma essencial de existir . O silêncio da água no interior das rochas, o silêncio do sol nascente, do dia que se põe, o silêncio do tempo de outrora, das cores vividas. O silêncio ou não bem o silêncio mas um murmúrio – o murmúrio do frio do poço, o som das árvores nos seus séculos de serem árvores, o som dos troncos ancestrais, o som da sua existência profunda, daquilo que as raízes tecem.

O que são as coisas.  Na vida procurei sempre o maior, o mais elevado. Sentir-me tão ínfima perante a grandeza, o infinito, a totalidade.  Na vida procuro o céu e as estrelas, procuro a varinha de condão que traz na ponta a possibilidade da magia. Ana Celeste. O Céu – transformar-me no céu com um tule azul celeste claro a cobrir-me o corpo – estrelas sobre o fato, uma lua na cabeça. O que são as coisas. O que são os mares e os rios, o que são os bosques, as florestas – as flores e o vento, a chuva, o fogo, o sol. O céu azul escuro com estrelas de amarelo brilhante – o Céu do Natal. Sempre ter tido uma Fé, uma Esperança.

O que são as pessoas. O que sentem, o que falam, o que silenciam. O medo que trava a vida e trava a fluidez de existir – a tristeza que estagna e condensa – a doença que aprisiona o ser num corpo que se fecha, que impede o rasgar da pele, uma outra liberdade. Viver na mente o que o corpo não permite. O tempo que passa, a velhice – como se integram as limitações, as fragilidades, as incapacidades? Como se aquieta a vida? Ou como se expande a consciência e a vontade para lá do corpo que murcha? Acreditar que devemos ser exploradores até ao infinito, vivos até ao fim – termos em nós a luz que nunca se apaga.

Desde criança que procuro o íntimo das coisas, o íntimo das pessoas – uma verdade mais certa – só o silêncio me permite a visita do sagrado, o íntimo faz-se mudo, sem ruído, sem palavra. A inquietação agita e confunde, mistura sons e toques e memórias e sabores. Ser um cavalo selvagem a quem coloco rédea – domar-me. Passar a vida numa desfaçatez de hipismo – puxar uma rédea, soltar a outra, puxar as duas. Ser um cavalo selvagem a quem oferecem um prado amplo e luminoso, um prado verdejante de possibilidades, uma outra natureza. Experimentar soltar as rédeas – tremer. Refrear o galope, parar. Ser um cavalo salvagem a quem colo rédea – domar-me. Concentrar-me no verde dos campos, na amplitude da paisagem, abrir o peito para lá do infinito – voar.

O que sentem os outros, o que pensam, o que os povoa, o que os constrói. Deito-me sobre a cama, aproveito o sol da tarde entrando no quarto – o sol morno aquecendo-me a pele, os olhos a boca, os cabelos. Sou feita de quê? Fecho os olhos, aprofundo. Sou feita do mar e do campo, do silêncio das pedras, do som das ondas, das cores dos peixes, do aroma das árvores.

Houve tempos em que me desliguei da natureza por me ser impossível um mergulho mais profundo. Quem está em nós quando não estamos? Quem nos habita quando ninguém? Procurar a experiência do vazio, da ausência. Enfraquecer é forma de existir menos – na ausência da sabedoria de sentir, da possibilidade de sentir, recolher-me. Ser um cavalo selvagem a quem coloco rédea curta – tudo sempre foi demais. O que fazer com o excesso? Com a vida que rebenta o peito inteiro e a alma toda? O que fazer com o sofrimento, com as mortes que trago em mim, com os vivos que sei mortais?

Procurar alicerce para construir a esperança, procurar terra fecunda de luz, de ânimo, de amor, de perdão – concentrar-me. Querer ser todas as coisas – a impossibilidade de ser todas as coisas. Ser coisas avulso – o que fazer com o excesso? Com a vida que rebenta o peito inteiro e a alma toda? Tactear a vida – saber tão ténue o equilíbrio –  concentrar-me, encontrar o eixo, o ponto brilhante à volta do qual nos vamos tecendo. Em criança tinha a árvore de Natal no meu quarto do Alentejo. Pai e mãe, avô e avó – todos os avós. O meu irmão Dinis. Os meus primos e os meus tios – as luzes na árvore, o Natal em Arronches. Concentrar-me, encontrar o eixo – o ponto brilhante à volta do qual me vou tecendo – ter dentro de mim todas as cores do pinheiro de Natal do meu quarto de criança, ter dento de mim toda a segurança, a protecção, a felicidade, o contentamento, o amor, o cuidado, a luz, a inspiração, o som, a beleza – ter dentro de mim o infinito que rebenta o corpo inteiro e a alma toda. Ser um cavalo à solta – perder o medo, soltar as rédeas – querer viver do amor, da responsabilidade e da esperança. Sentar-me no chão, de pernas cruzadas, as mãos em concha sobre o colo, a coluna vertebral alongada, fechar os olhos, deixar o mundo lá fora e afundar-me em luz brilhante, em todas as cores do meu pinheiro de Natal.

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Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de me comover. O sofrimento humano naquilo que tem de irredutível, naquilo que tem de (in)consciência, o sofrimento que que se sente infinito pela intensidade do sentir, pela capacidade  do Homem em de transformar o momento no eterno.

Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de comover. Mudei, contudo, a minha perspectiva. Hoje, a dimensão mais capaz de me comover, a mais capaz de me arrebatar, é o esforço – a força da vontade humana que permite alterar condições prévias, inerências, obviedades – a força da vontade transformadora, a persistência, a esperança, o empenho, a fé.

Há uns meses baptizámos o Miguel – e houve nesse gesto a minha pertença mais profunda. Se alguma coisa intento deixar da minha experiência de existir é talvez, e tão só, o esforço consciente de me transformar e a intenção de deixar como exemplo a mudança.

Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de me comover. Hoje o meu olhar recai sobre a renovação e sobre a beleza que advém do novo, do outro do homem que se ilumina quando nos abrimos às provas maiores – o amor, a humildade, o perdão. Morte e ressurreição.

Cristo revela-nos os nossos dois lados – o lado humano, da matéria e dos medos, o lado do sofrimento, o lado da carne, o lado das tendências e do hábitos, o lado dos desejos, das provações e da deformação – e o lado divino, do brilho e da luz, o lado da força, do amor e da leveza, o lado que transcende e se transmuta, o lado que se leva e se torna maior. O processo crístico é prova do caminho da transformação. Cristo transformou o medo em coragem, a dor em amor, o sofrimento em esperança. A experiência humana será sempre experiência de sofrimento. E também Jesus, na sua humanidade o teme:
“Pai, se for possível, afasta de mim este cálice”.
Mas Cristo vai além da sua humanidade, forjando as possibilidades da coragem e da Fé.
E ainda assim a dúvida -“Pai, porque me abandonas?”
E ainda assim o perdão – “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.
E, sobretudo, o amor na morte – o amor e não azanga, a raiva, a indignação. Na morte de Cristo fica o amor e a transformação.
Em cada um dos nossos dias é isso que nos é pedido – amor e transformação – o ponto do equilíbrio, o fio da navalha. A consciência do caminho nem sequer o facilita- às vezes há o humano cansaço e a sensação ilusão de tudo ser já bastante. Mas também há o amor e a luz, a iluminação. Cristo não me salva por se ter realizado. Cristo salva-me pelo exemplo da realização, pela inspiração – essa Bem-aventurança que os dias de densidade tendem a fazer desvanecer. Que haja pois consciência em cada dia, que haja foco, trabalho e esperança. Cristo é o Meu Mestre do Amor – Primeiro Mestre.

mor – Primeiro Mestre.

Azul Celeste Claro

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Quanto de mim nos dias sem Pai?
Arrumo-me há mais de uma década, todos os dias, na tentativa de uma superação qualquer – bocadinhos de memórias que se colam às paredes do coração, ao miocárdio, bocadinhos de memória a lembrarem-me – o que fui?

Há dias, alguém para mim – como consegues, depois de tudo?
– Como consigo, o quê?
– O equilíbrio.
O equilíbrio. Fechar os olhos e deixar-me cair. Ser primeiro a vertigem da terraplanagem – um avião. Planar no alto, rasar a superfície: os rios, os mares, as planícies e as montanhas. Rasar as searas, rasar as cidades grandes e os países longínquos. Aproximar-me num sopro, ganhar altura, deixar-me cair outra vez. Eu no quintal dos meus avós em Lisboa – brincar às floristas – hortenses, margaridas, jarros, jasmins. Sentar-me debaixo da estufa com os cadernos de escrever – os xuxus dependurados num aceno. Entreter-me a tirar as lesmas dos tijolos que separavam os canteiros – o canteiro dos morangos o meu preferido, o canteiro da salsa, da hortelã. Lesmas gigantes nas noites de calor. Esperar que o meu avô regressasse do serviço para regar o quintal. À noite o meu avô acordava depois de ter descoberto os cinco tostões. Páginas e páginas de contas e o meu avô, dias a fio, à procura de cinco tostões. Páginas e páginas de contas de fábricas que deveriam bater certo e contudo cinco tostões. Dias em que cinco tostões perdidos nas folhas, escondidos por detrás das linhas dos papéis e o meu avô a acordar a meio da noite:
– Já dei com o gato – e apontar a revelação num caderninho.
O cérebro do meu avô feito de aritmética. A minha avó – “o avô faz contas até a dormir”.

Ganhar altura outra vez. Morreram-me quase todos os que me tinham amor incondicional. Ganhar altura de novo, deixar-me cair – uma voragem-terraplanar. Mãe. Os laços que me ancoram à vida em que fui o que sou. Um dia encontro-me criança outra vez – eu plena. A minha mãe levando-me pela mão em direcção a casa. A minha casa – morreram-me quase todos os que me tinham amor incondicional. Tanto de mim pelo caminho –arrumo-me aos bocados, colo peças, refaço sentimentos.

Na noite em que o meu pai morto, perdi realidade corpória. A Rosário –  ao amanhecer dessa noite, na igreja – “tens menos cinco kg do que ontem”. A questão da vida.  Existir na certeza do desaparecimento. A morte enquanto tragédia, enquanto desamparo. Eis-me face à morte:  desamparada no sofrimento de estar viva e conscientemente só. Dar voltas sobre a solidão – não bem solidão mas a consciência de que sozinho, por não haver outra forma. A amputação da integridade do ser, a amputação da conservação – em todas as mortes, em todos os abandonos, em todos os desaparecimentos, em todas as injustiças, em todas as traições, a amputação da conservação. A vida advém da capacidade reconstruir e conservar.

O equilíbrio.

Em todas as tragédias há o humano desamparado no seu sofrimento de estar vivo e conscientemente só. Arrumo-me há mais de uma década, aos bocadinhos, dou-me forma – colo-me peça a peça, enfeito-me por dentro, ensaio um sorriso, encaixo os ossos das ancas, faço-me resistência. Num carnaval de criança, quis disfarçar-me de céu. Um tule azul Celeste, uma meia Lua na cabeça, estrelas douradas sobre as vestes. O equilíbrio – contar as estrelas, saber que sou todas elas. A voragem das noites, dos dias, o tempo do espaço e o espaço do tempo. Um dia dissolvo-me no universo, rodopio internamente a ganhar velocidade, saio pelo topo da cabeça e faço-me pó de estrela , pó de céu, pedacinho encantado de lua.

Estar neste mundo mas não ser deste mundo. Morreram-me quase todos os que tinham por mim amor incondicional. O que me prende à vida são os laços – só o amor nos salva. O equilíbrio. A vida tem, em si, a promessa da tragédia – o esforço de vida é o esforço da felicidade, é o esforço da transformação da dor em brilho e em luz. A tristeza traz-me frio. Um dia experimentei a raiva e as lágrimas ácidas que queimam os olhos. A raiva consome, esvazia os olhos de vida e torna baça a pele. Felicidade é trabalhar a raiva, transformar a ira e apaziguar o coração. Felicidade é uma borboleta no peito e haver esperança, é sermo-nos bastantes enquanto sustentação, é não nos deixarmos ficar. Felicidade é o desafio que se coloca para lá do ponto limite – abrir asas e voar. Felicidade é tranquilidade e disciplina, é libertarmo-nos de amarras por dentro. Felicidade são os balões amarelos que o Miguel leva para a escola. Felicidade é ir buscar os ovos ao galinheiro enquanto o meu avô trata de assuntos, na casa do fundo do quintal. Felicidade é esperar os meus pais à janela, contar-lhes os passos, ouvi-los entrar. Felicidade é ouvir a minha avó e admirar-lhe a compreensão sobre o lugar das pessoas na vida. A minha avó, uma maestrina de existências. Celeste Hortense. Felicidade é poder continuar a disfarçar-me de céu. Felicidade é fortalecer-me, é viajar de balão, é conter o medo e o sopro do vento, é resistir às intempéries, é saber mergulhar numa onda gigante, é ser uma menina fada numa noite estrelada.

 

Existir em Azul Celeste Claro e uma lua na cabeça.

A redenção

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A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. As pessoas e as circunstâncias das pessoas e alguma coisa nelas que nunca soube explicar mas que sempre me provocou uma espécie de dor ou um sufoco – um amarfanhar de mim que apenas experienciava sem lhe conhecer a natureza ou a origem ou o intuito.

A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância, existiu sempre associada a um imperativo de aconchego  – o meu quarto e a existência de livros e música e lápis e papel – recolher-me no quarto e aquietar-me na almofada ou pintar desenhos a lápis de cor ou ler os meus livros ou pegar nos cadernos e por-me a escrever. Aprender a pensar tentando encontrar a palavra certa para o pensamento, a palavra que descreve o  universo que vem do sentir- escrever como forma de dar forma e aí me resguardar.

Em criança também fazia bonecas de trapos – desenhava-lhes os fatos nos tecidos, recortava-lhes o corpo e enchia-as de algodão. Cosia-as, depois, antes de lhes construir os cabelos em lã. Pintava-lhes os olhos, o nariz, ensaiava-lhes um sorriso. Uma boneca chamada Leila, que me acompanhou tempos fora – as calças  em verde alface, a camiseta de flores. A boneca Leila a servir-me de companhia e eu alegre com isso. A boneca Leila nunca me deu vontade de chorar e o boneco André apenas me afligiu quando teve um problema no botão que lhe permitia rodar o pescoço. O boneco André era bastante meu amigo e cordato e não me fazia sentir mal com falhas que não eram minhas.

Ao contrário da boneca Leila e do boneco André, as pessoas especializam-se em fazer surgir nas outras uma pontinha de culpa por fraquezas que são delas. Ao contrário daquilo que sempre ensinei à boneca Leila e ao boneco André, as pessoas crescidas não são todas adultas e responsáveis e sapientes de todas as coisas que são importantes. As pessoas crescidas são, muitas vezes, crianças caprichosas que cresceram e que por via do crescimento se presumem grandes e sérias. A grande diferença entre o que fui em criança e o que sou no tempo presente é que hoje consigo identificar a origem da sensação que desde sempre me acompanha:  aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é a agressão – expressa ou latente, nas suas palavras e nas suas acções. Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é o ímpeto e a pressa e viverem cheias de coisas que não servem de alegria para ninguém. Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é a rudeza dos modos e a dureza do coração.

Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar vem de longe  – na cabeça das crianças os adultos não falham, pelo que, se falham com elas é porque elas os levam a falhar. Criança nenhuma concebe que os adultos que cuidam de si possam ter fragilidades de todo o tipo – as crianças necessitam de quem faça de escudo entre elas e a vida, entre elas e o mundo, pelo que os adultos são fortalezas inquebráveis, não falham : as falhas vêm sempre das crianças e com as falhas, a culpa.

A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. As pessoas e as circunstâncias das pessoas e a facilidade com que educam para a culpa ao invés de educarem para  a possibilidade de perdoar e para o pedido de perdão. As pessoas educam para a culpa e as crianças são os melhores alvos dessa educação: nenhuma criança concebe que os adultos que cuidam de si tenham falhas, logo, perante tudo o que corre mal, a culpa é sua. Educar as crianças para as suas falhas e para o medo de errar é educar pessoas para a defesa e para a agressão.

Talvez o melhor de nós seja aquele que se concentre em fazer florescer o melhor lado dos outros ao invés de se demorar nas suas falhas e fraquezas, talvez o melhor de nós seja aquele que, ao invés de apontar a fragilidade do outro, trabalhe sobre si, talvez seja aquele que, sabendo-se fraco porque humano, aceita a sua condição mas não desiste de se transformar. Talvez o melhor seja aquele que não se aquieta, aquele que se sabe além.

A sensação que mais profundamente me acompanha desde a infância, é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. A grande diferença entre a minha idade de ontem e a minha idade de hoje, reside na capacidade que hoje detenho de identificar a natureza dessa sensação – as pessoas dão-me vontade de chorar porque ainda não as aceito profundamente e por isso ainda me quedo ali, no lado mais sombrio que mostram, à espera que um dia mudem.

Avisar a boneca Leila e o boneco André de que é ao contrário que as coisas se fazem: perante a fragilidade desenvolvamos força, perante a alteridade desenvolvamos tolerância, perante a agressão desenvolvamos capacidade de perdão. Avisar a boneca Leila e o boneco André que isto leva a vida toda e que, por isso, o melhor é pormo-nos os três a caminho.

Do outro lado do espelho

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No quarto da casa dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe. O retrato da minha mãe era grande e não bem a preto e branco mas da tonalidade diferente que é a evocação das cores nos retratos antigos. No quarto dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe e foi na demorada contemplação desse retrato que descobri a minha relação com o sagrado.

No quarto da casa dos meus avós havia, ao lado do retrato da minha mãe, sobre a cómoda, uma caixa de música de corda onde uma bailarina e o som de uma música bela  – creio que um pouco triste.  Foi na experiência dessa música e na contemplação do retrato da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado.

A minha mãe teria uns quinze anos, dezasseis anos – talvez – nesse instante captado,  e sorria um sorriso leve. O cabelo era curto e ondulado, o vestido era branco às bolas e havia na minha mãe a expressão de ideia romântica . No olhar da minha mãe, uma certa adequação à vida ou a adequação bastante para uma existência tranquila. No olhar da minha mãe, a força e a vitalidade das coisas que existem, uma certa perfeição –  foi  da consciência da finitude dessa perfeição de existir que descobri a minha relação com o sagrado.  

Ao contrário do medo, que é sempre relativo a alguma coisa, a angústia advém da experiência da antecipação do nada. Foi da consciência da antecipação do nada, da finitude humana, do impensável que é o não-ser – mais no mundo da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado – o sagrado nessa forma última, transcendente à matéria, ao corpo físico,  o sagrado que consiste em construir com a minha mãe uma relação fundada em laços que contém a imortalidade.

No quarto dos meus avós, o retrato da minha mãe e a experiência tacteada, intuída, de que o problema último, o problema essencial, é posto pelo conflito do amor e da morte.  Talvez porque naquele retrato  um brilho, um certo mistério, talvez porque uma correcta adequação, uma eventual promessa, talvez porque calor lá fora – e a certeza da transcendência para que não morra nunca a minha mãe. O sagrado na minha mãe e a certeza de que a minha mãe não morre nunca, nem hoje, nem sempre, nem nunca mais.

Reside o sagrado na experiência compartilhada, intocável, fundada no amor verdadeiro. Reside o sagrado na beleza da Natureza, na magia dos lugares, no espaço suspenso, imaterial – que é a parte de nós que se eleva quando nos descobrimos por dentro. Reside o sagrado na leveza e nos dias que são sopro, nos dias que são vento. O sagrado no ânimo que habita os homens, no ânimo que habita as mulheres que, ainda que de joelhos, vergados, se erguem sem sucumbir. O sagrado no extraordinário de haver sol e de haver luz – o sagrado no azul celeste do céu. Encontrar o sagrado no passo primeiro para lá do limite – o sagrado no além da dor humana, na ultimidade que é o mistério de cada pessoa. O sagrado na transformação do homem no além de si, na transformação do homem na parte mais elevada de si. Cumprirmo-nos como pessoas talvez signifique viver de tal forma que nos façamos sagrados para alguém – procurarmos na vida os caminhos que nos levem aos outros, encontrando, primordialmente, o caminho que nos encontra. O sagrado na captação da pessoa pela transcendência de um retrato.

As pessoas sem sagrado esvaziam-se e morrem – as pessoas sem sagrado são corpo que sucumbe.

O sagrado que se diz mãe são luzes de tantas cores brilhando para sempre em todos os mundos – mãe em todas as chuvas, em todos os campos, em todos os mares, em todos os peixes, em todos os céus. O sagrado da minha mãe nas cores – tantas cores – de todos os dias.

É no sagrado de existir que a existência se faz realmente humana.

 

 

A Infância é a nossa pátria II

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aquele-abraco-1Aquilo que de mais sólido, perene e imutável o meu pai me ensinou foram os abraços. Silenciosos, sempre, demorados, sempre e sempre profundos. Aquilo que de mais sólido, perene e imutável o meu pai me ensinou foram os abraços e o significado dos abraços, os abraços e a certeza de haver, nos abraços do meu pai, um amor inabalável e, por isso, a permissão para crescer e a possibilidade de errar.

O meu pai zangava-se com os olhos e com o silêncio das palavras e também com o coração. O meu pai zangava-se de forma rigorosa e sem possibilidade de dúvida. Quando o meu pai se zangava, zangava-se  inabalavelmente  e contudo – nenhum erro meu, nenhuma falha comprometeu os seus abraços silenciosos e profundos – abraços demorados que me ensinaram a sustentação que vem da grandiosidade da entrega.

Abraçar é tomar o outro nos braços, é abrirmo-nos à alteridade da sua pele, ao contacto com o seu coração, é tornarmo-nos sustentadores daqueles instantes de existir. Abraçar é conceder ao outro a possibilidade de caminhar pela certeza de ser suportado – a certeza de não haver abandono, de não haver solidão, a certeza da possibilidade do caminho, de todo o caminho, porque há braços que o recebem. Abraçar é fazermo-nos de escudo, impormo-nos entre o outro e a sua aridez, entre o outro e a sua solidão, entre o outro e o seu medo. É tomarmos parte de uma dor, de uma alegria, tomarmos parte da existência que acontece fora de nós.

Os abraços transparecem o mais íntimo de nós, expressam o amor que conseguimos, a generosidade que conseguimos, expressam a parte de nós que oferecemos. Ensinou-me o meu pai a supremacia dos abraços – essa forma profunda de ligação . O abraço que é entrega é também sustentação e alegria e por isso é colo, é embalo, é  força vital de existir ( essa força que me segurava o colchão de água nas ondas imensas do mar do Pedrógão).

Haverá sempre um momento (muitos momentos) em que a vida nos confronta e nos impele à compreensão de que a existência é, na sua forma mais profunda, um exercício de solidão. Diluo o temor dessa percepção, a fragilidade a que essa consciência me conduz, na possibilidade de poder abraçar – o abraço é partilha e é também companhia. Na sua essência de envolvência e protecção, talvez seja a única verdadeiramente possível.

Ensinou-me o meu pai que a solidão se combate com a vivência do gesto que vida fora nos recebe, que vida fora nos acolhe. É essa a experiência que nos sustenta, é essa a vivência maior – mesmo quando apenas existe na memória.

Que seja este, também, tempo de abraçarmos – que seja tempo de nos abrirmos e de permitirmos em nós o melhor de tudo isso. Não é a protecção que nos transforma – o que nos transforma é a abertura à vida, a abertura aos outros, a abertura a diluirmos as nossas fronteiras internas para darmos passos em frente, além de nós, para lá de nós.  Rasgar o véu do desconhecido implica, contudo, a experiência de um amor certo. Ensinar abertura e oferecer amor certo para que seja possível um  outro mundo e uma outra vida – a infância é a nossa pátria.

A infância é a nossa Pátria ( I )

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“A sociedade do Século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas sim uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não, por sua vez, “sujeitos de obediência”, mas  sim sujeitos de produção. São empresários de si próprios”.

A Kelly disse-me, há uns dias, que andava a tentar perdoar os pais pelo facto de a terem medicado em criança. A Kelly tem vinte e poucos anos, é norte americana e foi medicada com Ritalina  numa certa fase da sua infância. Os pais da Kelly , que se impacientavam com a sua agitação, levaram-na ao médico e tentaram encontrar uma solução rápida para a acalmar. A Kelly perdeu energia e ganhou uma certa ferida, uma dor. O que a magoa, diz, é perceber que aquilo que sempre  faltou aos pais foi paciência – paciência e tolerância para com a Kelly em crescimento e transformação. “Se tivessem esperado” – diz  -“ não teria sido necessário medicação nenhuma porque aos 10, ou 11 anos eu acalmei naturalmente”.

A Kelly sabe hoje que os pais fizeram o seu melhor, sabe hoje que os pais – todos os pais – são pessoas como as outras e que por isso cometem erros, sabe que é preciso perdoar ressentimentos e mágoas para poder avançar. Hoje está alerta – a Kelly também sabe que durante muito tempo fez tudo para magoar a mãe, para maltratar a mãe. A Kelly hoje tenta entender. Mas é ágil a diagnosticar o problema: a impaciência dos pais face à necessidade de darem  tempo aos filhos para que cresçam e a incapacidade dos pais olharem os filhos como seres autónomos, diferentes de si, apartados de si.

Kelly faz esse esforço de reconstrução, anos passados, anos depois.

A impaciência dos pais de hoje. Os pais, construtores de uma sociedade em que as crianças frequentam obrigatoriamente o pré-escolar ( tendo as 9:00h como hora limite de entrada). A impaciência dos pais face ao ainda ser criança dos filhos e a impaciência das escolas face ao ainda ser crianças dos alunos – meninos e meninas de 10, 11 e 12 anos com horários diários de saída às 18:25h, meninos que passam tanto tempo na escola quanto um adulto num emprego – meninos e meninas sem sindicatos porque está tudo bem quando o que conta é a aposta no futuro. Crianças carregando mochilas cheias de muitos kgs de livros, passeando  contracturas musculares de crescidos e tensão cervical passível de gente grande. Meninos e meninas  que aprendem inglês desde os 3, desde os 4 anos, crianças a quem se acha muita graça quando exibem as suas competências precoces e reiteradamente estimuladas.  Crianças que se querem  competentes, talhadas para o empreendimento e para o sucesso no empreendimento. Crianças bombardeadas  pelo excesso – excesso de estímulos, informação e impulsos, em preparação para responderem, de forma  rápida e eficaz, a exigências múltiplas . Silêncio face à abertura, à forma de receberem o universo e os outros, silêncio face à generosidade e à gratidão.

A impaciência dos pais face aos erros dos filhos – os erros catalogados como falhas e não como possibilidades reais de aprendizagem. A impaciência dos pais face aos erros dos filhos porque os pais impacientes face aos seus próprios erros, incapazes face às suas falhas. O amor próprio esvaindo-se pelo orifício do erro, o terror face ao não ser capaz – ser muito mais fácil gostarmos de nós quando não nos encontramos falhas, tão mais fácil gostar dos outros quando não aparentam erros (tão ideais os filhos que  contribuem para o sucesso dos pais na sua competência de pais).  

Pais fragilizados,  concedendo aos filhos a ilusão de uma segurança que na vida não existe (porque na vida também há frio e fogo e morte e neve), pais  em  vigilância permanente, afastando os filhos de todos os perigos exteriores quando, na verdade, o perigo primeiro, o perigo número  um, é aquele que nasce no seio, no âmago, no íntimo da vítima que se vê como responsável pela sua condição. O perigo primeiro reside, hoje, na possibilidade real das crianças verem  o seu sofrimento  como consequência da sua falha – e logo da sua humanidade –  e por isso se exponenciarem em competência, em dureza, em fechamento e em cegueira.

Crianças super- ocupadas, programadas e competentes, crianças super-protegidas e debilitadas, sem mundo próprio de crianças, sem arco-íris no dedos,  vazias da magia que, vida fora, as poderá  segurar – a infância é a nossa pátria.

Indica-nos Kelly  o descaminho, o caminho árduo.

                                                                                                                                                                                        

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