Laranjeiras e pó de estrela

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Laranjeiras e pó de estrela

Ainda há pouco a minha mãe ligou a dizer-me que já não estavas vivo e eu corri à tua casa para aí entrar com uma impressão de imoralidade – saíste há pouco na certeza de voltares – uma ida fugaz à quinta, 30 minutos, 40 minutos se tanto e não voltaste mais – viajaste para longe na poesia das laranjas, junto do tacto da terra, envolto na placidez do campo. Adormeceste assim de repente e apesar da imprevisibilidade, sereno – a certeza de teres sido embalado pelos limoeiros, por todas as árvores de fruto, pela beleza de todas as flores.

Um mês, Mané, e ainda há pouco a minha mãe ligou a dizer-me que já não estavas vivo e eu sobressaltada ao telefone, aquela sensação de irrealidade, de impossibilidade, a certeza de não poder ser -a ilusão de haver na vida uma estrutura, a ilusão de permanência,  daquilo que a vida é. Saíste para ir à quinta e não voltaste mais, Mané, e a tua casa encheu-se de gente e de vazio – a solidão repentina das tuas coisas, as tuas fotografias desabitadas, a estranheza de seres, de manhã, ainda presente e à tarde já passado- esse lado do tempo em que entram todos os que mesmo agora acabam de partir.

Páro o carro em frente à quinta e jurar que te vejo de um lado para o outro, atarefado na tua forma de te multiplicares em afazeres variados – a loja, a quinta, os netos que precisam de ti. A Teresa e a Cláudia, a Duda. Páro o carro em frente à quinta e vejo-te com as botas do campo, cestos na mão, entrares em casa, saíres.  As árvores de fruto, as flores. A memória dos teus cães de outrora – Jolie e Tarzan . O Tarzan preso atrás da casa, a trela presa a uma árvore, à distância segura da nossa passagem. Limoeiros, laranjeiras, nespreiras, nogueiras, o néctar dos alperces.

A minha mãe ligou-me há pouco a dizer que já não estavas vivo, que foras à quinta e depois mais nada. Jurar que ainda agora te vi com uma cesta de ovos, uma couve gigante nos braços, chegares de carro com a Rita, com a Inês. Jurar que ainda agora que te vi sair à noite para caçares gambuzinos com o meu irmão. Eu e a Cláudia com o meu pai, no escuro, em frente à casa, a auscultar pirilampos. A  natureza fluorescente de verde brilhante e tu e o meu irmão às voltas à casa para regressarem desvalidos:

– Nem um para amostra.

Se acaso calhávamos a dormir na quinta, os gambuzinos escondidos –  na  vez de gambuzinos, coelhos, patas, galos. Eu indiferente na magia dos pirilampos, deitada na cama a contemplar aranhões e centopeias. Uma vez uma centopeia atrás da porta, tão grande quanto um gambuzino e eu uma noite de insónias, a escutar-lhe os passos de milhares de patas, imaginando-a a subir a cama, a deslizar pelos lençóis, a usurpar-me o corpo e a pele.

Quando cheguei perto da minha mãe depois de já não estares vivo, a minha mãe para mim “é parte da minha infância que se vai”. Não é verdade, mãe, a infância não se vai assim. Se ainda agora acabo de jantar, visto o pijama e desço até ao 3º andar para me sentar com o Mané e a Cláudia a vermos televisão. Ainda agora o Mané acabou de fazer uma piada, ainda agora eu e a Cláudia nos rimos até eu cair do sofá. Ainda agora terminou a telenovela e ficámos a rir com o Mané a  fazer rimas – ainda agora o meu pai desceu para se sentarem à camilha e ficarem o serão a jogar pócker. Não é verdade o que dizes, mãe, porque mesmo agora os vi beber uma bebida por aqueles cálices de cor, ainda agora vi o meu pai fazer as grelhas do pócker e os ouvi lançarem os dados. Juro que ainda agora os ouvi rir, ainda agora senti o quente da braseira, ainda agora me sentei no chão da salinha da Duda, a jogar  ao jogo da Glória com a Cláudia, à espera do momento em que a deixavam ( a ela) lançar os dados uma vez. Eu nem estatuto para lançar os dados uma vez – em vez de dados, Micado, Monopólio, Batalha Naval. O meu irmão com a Teresa no quarto e tu a conversares com a Duda sobre assuntos.  A Teresa, madrinha do Dinis, ensinando-lhe as maravilhas de ser poliglota:

– “I am a Boy”.

Se a avó Inês em casa, a avó Celeste para mim:

– Vou lá abaixo ver a avó Inês.

A avó Celeste  quase da idade da avó Inês e a avó Celeste:

– Vou lá abaixo ver a avó Inês

A avó Celeste visitava a avó Inês como se praticamente sua neta:

-“Avó Inês cuidado com o frio, avó Inês não se constipe”

A maior maravilha da existência é a intemporalidade. A possibilidade de deixarmos a mente viajar até onde quer – outro tempo, outro espaço. A possibilidade de visitarmos outros séculos, outros povos, entrarmos noutras dimensões. A maior maravilha da existência é vermo-nos netos de uma pessoa da nossa idade, é percebermos que a morte não leva isto das pessoas, não leva das pessoas nem a ponta de uma unha  – a morte não tem capacidade perante o amor, o tempo não tem possibilidade perante a consciência. A morte sobrepõe-se ao sofrimento, à indiferença, à falta de cuidado, mas será sempre incapaz  perante a partilha, a entrega, o amor. As pessoas que nos morrem continuam a pulular à nossa volta – encontramo-las em todo o lado, reconhecemos-lhes os cheiros, escutamos-lhes as vozes.   Conservamos aqueles que nos morrem dentro do peito e por debaixo da pele – continuam connosco todos os que fazem  parte de nós. O som do riso dos que morrem vibra na eternidade – não há morte capaz face ao riso, não há morte capaz face àquilo que damos de nós – Riso e Amor e ser esta a elevação maior.

De modo que não tens razão, mãe, o Mané não leva consigo parte nenhuma da tua infância, porque o Mané ficará para sempre inscrito no espaço e no tempo que foi o de existir – a existência só se  dissolve naquilo que foi vazio, não naquilo que um dia alguém preencheu. Existimos tanto mais quanto vibramos nos outros, quanto tocamos os outros, quanto deixamos de nós.  Por isso não tens razão mãe – se ainda agora acabei de ver o Mané atirar o meu irmão ao ar, bater as palmas e voltar a agarrá-lo com uma gargalhada. O meu irmão a voar nos braços do Mané, como voava nos pés da Teresa:

– Queres vir à Lua?

Ainda agora a Teresa levou o meu irmão à lua – deitou-se de costas no chão, a barriga dele sobre os seus pés, segurou-lhe as mãos, subiu as pernas e fê-lo voar.

– Queres vir à Lua? – e o Dinis vizinho da lua, tocando estrelas, planetas, asteróides.

No dia do funeral do meu pai a  Teresa chorou em silêncio – lágrimas grossas  caindo a direito, aquela tristeza sem amparo. Tempos depois do meu pai ter morrido, a Cláudia para mim “ o teu pai é a primeira pessoa em quem penso quando acordo”. O meu pai existe gravado na Cláudia e na Teresa como o Mané existirá gravado em nós.

Um dia quando todos morrermos será a parte de nós que fica nos outros aquela que mais importa. Cuidar ser isso o mais importante na vida – a forma como tocamos, a qualidade do toque, a mestria como o fazemos. A vida é também essa possibilidade de nos tocarmos para podermos tocar – a vida como possibilidade  de tornarmos o lugar do outro num lugar melhor. A vida como possibilidade de simpatia, de graça, de afabilidade – a disponibilidade para ir ao encontro, facilitar, entregar. Tudo isso, Mané, te fará sempre presente – estarás vivo no verde dos campos e no aroma das árvores, nas formas dos frutos, na vida das flores, no sol e nos dias de chuva, nos pássaros que sempre cantam, nos caminhos que percorreste, nas pessoas que amaste, em todos os que dentro de si te guardam. Um dia também nós seremos pó de estrela, Mané – até lá que consigamos ter a sabedoria de bailar.

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Asteroide Marta17/12/2004

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Olho para ti e vejo-te viajando nesse asteroide que tem o teu tamanho tal e qual o do Principezinho. Às vezes sei que o povoas de flores, sei que o povoas de rosas, de estrelas e de sonhos que guardas para ti. Olho para ti e vejo-te cirandar nesse asteroide que tem o teu tamanho, tal e qual o do principezinho e sei que há dias em que fazes chover corações, dias em que fazes chover purpurinas, dias que são dias de te rires com o corpo todo com esse teu jeito pueril. Olho para ti e sei que há dias em que existes de alma cheia, dias de arco-íris e de corridas à chuva pelos bosques encantados. São dias de sol radioso nesse teu asteroide que te ocupa o corpo todo tal e qual o do Principezinho.

Mas há dias em que chove, no asteroide que tem o tamanho do teu corpo. Dias em que troveja e em que caem do céu, folhas amarelas de um outono ao qual ainda não consegues dar sentido. No asteroide onde vives, a vida é um vaivém de baloiço, uma viagem democrática, um pressuposto único de justiça universal. A vida é suposta ser límpida e sem crises e os meninos – todos os eles – são supostos ser felizes. No asteroide em que vives, as crianças têm vozes superlativas e não conhecem sofrimentos ou as dores que as fazem crescer. Mas nasceste de olhos abertos, Marta – faz hoje treze anos e eram 11horas e vinte e oito minutos. A Natureza que dentro de ti se ordena, aquela que se coaduna à vida pacífica no teu interior, é aquela em que existes desperta, atenta, determinada – tens a capacidade de ver o sofrimento e de te agitares com ele e esse é predicado maior.

O asteroide em que vives e que tem o tamanho do teu corpo, encerra esta ambivalência- um sol radioso onde as cores sustentam a justiça elementar, o amor dedicado, a generosidade, a compaixão – e uma tempestade invernosa, de revolta e indignação, de destruição, de bloqueio, de deambulação interior. O que ainda não sabes, Marta, o que ainda não consegues perceber, é que a vida, toda ela, encerra o verão e o inverno, a primavera e o outono. O que ainda não sabes, Marta, é que não há vidas de uma estação só – todas as vidas passam por todas as estações e será preponderante aquela a que a pessoa der mais peso. Não há vidas de verão, nem vidas de inverno – há vidas de pessoas.  Nesse caminho imenso, múltiplo e complexo, os tempos misturam-se, revolvem-se, agitam-se: chove no inverno, faz sol no outono, caem folhas na primavera. Quanto mais abrires o teu asteroide a todas as estações possíveis, mais sol deixarás entrar, mais cores terá o teu arco-íris, mais luz terão as tuas estrelas, mais alto voará o teu baloiço, mais fadas te irão visitar.

Aos cinco anos fizeste uma mochila para saíres de casa. Levavas umas orelhas de Minie, uma escova de dentes, um fato de bailarina e uma bandolete. Levavas um pijama e partias revoltada porque me havia indignado com os pedaços de fruta colados ao teu caderno diário da primeira classe. Habitavas um asteroide exactamente do teu tamanho, tal e qual o do Principezinho e indignava-te o facto de não teres feito nada para que acontecesse a tragédia da pera colada às folhas.  Consideraste um abuso de autoridade a minha chamada de atenção, uma vez que fora um acaso – não abriste a caixa da pera, não colaste a pera com cola à folha das vogais e das primeiras consoantes e não eras, por justiça, responsável pelo sucedido. Aos cinco anos fizeste uma mochila para saíres de casa, por considerares um ultraje uma chamada de atenção por um facto que aconteceu alheio à tua vontade ou directa acção.

Cuidar que grande parte dos dias de inverno no teu asteroide prendem-se exactamente com esta incompreensão, com a incompreensão da inexistência de uma justiça plena, de relações que não se esgotam uma dádiva total de duas pessoas em simetria absoluta, da incompreensão perante a vida nos seus pressupostos de ser vida. Isso faz de ti uma menina maravilhosa, mas é preciso saberes transformar. Transformar a zanga, a revolta, o mutismo, a agressividade. Transformar a dor em esperança, o abandono em cuidado. À medida que cresces, Marta, poderás povoar o teu asteroide da sabedoria que faz entender, ou que faz aceitar ou que te faz divertir. Povoa o teu asteroide com o que tens de melhor – um coração  imenso, a generosidade, a capacidade de acolheres e de te comoveres, o teu riso e o teu sentido de justiça. Deixa entrar o sol nos dias de chuva, coloca as orelhas de Minie,  desenvolve a capacidade de perdão, pede força e coragem, aceita o que for para ti, pede sempre, todos os dias, amor e sabedoria, e a tua vida será plena e o teu asteroide será povoado de amigos, de flores e de sonhos, de arco-íris de mil cores, de pássaros que voam livres, de peras coladas às letras, de mochilas com cinco anos, de todos os que têm por ti amor infinito e que te sustentam através de laços de amor enrolados em algodão doce e em histórias de encantar.

Abre os braços e voa – perde o medo, inunda-te de esperança, confia e entrega-te – o universo nunca te deixará cair.

Parabéns querida Marta, com infinito amor.16584852_1909132729368345_5219398855447019520_n

O Vórtice

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Apoio as mãos no rebordo do poço, inclino-me para a frente, fecho os olhos. Os pés descolam ligeiramente do chão, debruço-me com cuidado – deixo pender a cabeça, o burro estanca a volta da nora – as ovelhas encantam os campos – o barulho dos chocalhos, as rãs coaxando na charca, o Sr. António passando no tractor.

Desde criança que procuro a intimidade das coisas –  o seu silêncio, a sua forma essencial de existir . O silêncio da água no interior das rochas, o silêncio do sol nascente, do dia que se põe, o silêncio do tempo de outrora, das cores vividas. O silêncio ou não bem o silêncio mas um murmúrio – o murmúrio do frio do poço, o som das árvores nos seus séculos de serem árvores, o som dos troncos ancestrais, o som da sua existência profunda, daquilo que as raízes tecem.

O que são as coisas.  Na vida procurei sempre o maior, o mais elevado. Sentir-me tão ínfima perante a grandeza, o infinito, a totalidade.  Na vida procuro o céu e as estrelas, procuro a varinha de condão que traz na ponta a possibilidade da magia. Ana Celeste. O Céu – transformar-me no céu com um tule azul celeste claro a cobrir-me o corpo – estrelas sobre o fato, uma lua na cabeça. O que são as coisas. O que são os mares e os rios, o que são os bosques, as florestas – as flores e o vento, a chuva, o fogo, o sol. O céu azul escuro com estrelas de amarelo brilhante – o Céu do Natal. Sempre ter tido uma Fé, uma Esperança.

O que são as pessoas. O que sentem, o que falam, o que silenciam. O medo que trava a vida e trava a fluidez de existir – a tristeza que estagna e condensa – a doença que aprisiona o ser num corpo que se fecha, que impede o rasgar da pele, uma outra liberdade. Viver na mente o que o corpo não permite. O tempo que passa, a velhice – como se integram as limitações, as fragilidades, as incapacidades? Como se aquieta a vida? Ou como se expande a consciência e a vontade para lá do corpo que murcha? Acreditar que devemos ser exploradores até ao infinito, vivos até ao fim – termos em nós a luz que nunca se apaga.

Desde criança que procuro o íntimo das coisas, o íntimo das pessoas – uma verdade mais certa – só o silêncio me permite a visita do sagrado, o íntimo faz-se mudo, sem ruído, sem palavra. A inquietação agita e confunde, mistura sons e toques e memórias e sabores. Ser um cavalo selvagem a quem coloco rédea – domar-me. Passar a vida numa desfaçatez de hipismo – puxar uma rédea, soltar a outra, puxar as duas. Ser um cavalo selvagem a quem oferecem um prado amplo e luminoso, um prado verdejante de possibilidades, uma outra natureza. Experimentar soltar as rédeas – tremer. Refrear o galope, parar. Ser um cavalo salvagem a quem colo rédea – domar-me. Concentrar-me no verde dos campos, na amplitude da paisagem, abrir o peito para lá do infinito – voar.

O que sentem os outros, o que pensam, o que os povoa, o que os constrói. Deito-me sobre a cama, aproveito o sol da tarde entrando no quarto – o sol morno aquecendo-me a pele, os olhos a boca, os cabelos. Sou feita de quê? Fecho os olhos, aprofundo. Sou feita do mar e do campo, do silêncio das pedras, do som das ondas, das cores dos peixes, do aroma das árvores.

Houve tempos em que me desliguei da natureza por me ser impossível um mergulho mais profundo. Quem está em nós quando não estamos? Quem nos habita quando ninguém? Procurar a experiência do vazio, da ausência. Enfraquecer é forma de existir menos – na ausência da sabedoria de sentir, da possibilidade de sentir, recolher-me. Ser um cavalo selvagem a quem coloco rédea curta – tudo sempre foi demais. O que fazer com o excesso? Com a vida que rebenta o peito inteiro e a alma toda? O que fazer com o sofrimento, com as mortes que trago em mim, com os vivos que sei mortais?

Procurar alicerce para construir a esperança, procurar terra fecunda de luz, de ânimo, de amor, de perdão – concentrar-me. Querer ser todas as coisas – a impossibilidade de ser todas as coisas. Ser coisas avulso – o que fazer com o excesso? Com a vida que rebenta o peito inteiro e a alma toda? Tactear a vida – saber tão ténue o equilíbrio –  concentrar-me, encontrar o eixo, o ponto brilhante à volta do qual nos vamos tecendo. Em criança tinha a árvore de Natal no meu quarto do Alentejo. Pai e mãe, avô e avó – todos os avós. O meu irmão Dinis. Os meus primos e os meus tios – as luzes na árvore, o Natal em Arronches. Concentrar-me, encontrar o eixo – o ponto brilhante à volta do qual me vou tecendo – ter dentro de mim todas as cores do pinheiro de Natal do meu quarto de criança, ter dento de mim toda a segurança, a protecção, a felicidade, o contentamento, o amor, o cuidado, a luz, a inspiração, o som, a beleza – ter dentro de mim o infinito que rebenta o corpo inteiro e a alma toda. Ser um cavalo à solta – perder o medo, soltar as rédeas – querer viver do amor, da responsabilidade e da esperança. Sentar-me no chão, de pernas cruzadas, as mãos em concha sobre o colo, a coluna vertebral alongada, fechar os olhos, deixar o mundo lá fora e afundar-me em luz brilhante, em todas as cores do meu pinheiro de Natal.

Bleibet hier

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Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de me comover. O sofrimento humano naquilo que tem de irredutível, naquilo que tem de (in)consciência, o sofrimento que que se sente infinito pela intensidade do sentir, pela capacidade  do Homem em de transformar o momento no eterno.

Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de comover. Mudei, contudo, a minha perspectiva. Hoje, a dimensão mais capaz de me comover, a mais capaz de me arrebatar, é o esforço – a força da vontade humana que permite alterar condições prévias, inerências, obviedades – a força da vontade transformadora, a persistência, a esperança, o empenho, a fé.

Há uns meses baptizámos o Miguel – e houve nesse gesto a minha pertença mais profunda. Se alguma coisa intento deixar da minha experiência de existir é talvez, e tão só, o esforço consciente de me transformar e a intenção de deixar como exemplo a mudança.

Durante longo tempo considerei o sofrimento humano como a dimensão mais capaz de me comover. Hoje o meu olhar recai sobre a renovação e sobre a beleza que advém do novo, do outro do homem que se ilumina quando nos abrimos às provas maiores – o amor, a humildade, o perdão. Morte e ressurreição.

Cristo revela-nos os nossos dois lados – o lado humano, da matéria e dos medos, o lado do sofrimento, o lado da carne, o lado das tendências e do hábitos, o lado dos desejos, das provações e da deformação – e o lado divino, do brilho e da luz, o lado da força, do amor e da leveza, o lado que transcende e se transmuta, o lado que se leva e se torna maior. O processo crístico é prova do caminho da transformação. Cristo transformou o medo em coragem, a dor em amor, o sofrimento em esperança. A experiência humana será sempre experiência de sofrimento. E também Jesus, na sua humanidade o teme:
“Pai, se for possível, afasta de mim este cálice”.
Mas Cristo vai além da sua humanidade, forjando as possibilidades da coragem e da Fé.
E ainda assim a dúvida -“Pai, porque me abandonas?”
E ainda assim o perdão – “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.
E, sobretudo, o amor na morte – o amor e não azanga, a raiva, a indignação. Na morte de Cristo fica o amor e a transformação.
Em cada um dos nossos dias é isso que nos é pedido – amor e transformação – o ponto do equilíbrio, o fio da navalha. A consciência do caminho nem sequer o facilita- às vezes há o humano cansaço e a sensação ilusão de tudo ser já bastante. Mas também há o amor e a luz, a iluminação. Cristo não me salva por se ter realizado. Cristo salva-me pelo exemplo da realização, pela inspiração – essa Bem-aventurança que os dias de densidade tendem a fazer desvanecer. Que haja pois consciência em cada dia, que haja foco, trabalho e esperança. Cristo é o Meu Mestre do Amor – Primeiro Mestre.

mor – Primeiro Mestre.

Azul Celeste Claro

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Quanto de mim nos dias sem Pai?
Arrumo-me há mais de uma década, todos os dias, na tentativa de uma superação qualquer – bocadinhos de memórias que se colam às paredes do coração, ao miocárdio, bocadinhos de memória a lembrarem-me – o que fui?

Há dias, alguém para mim – como consegues, depois de tudo?
– Como consigo, o quê?
– O equilíbrio.
O equilíbrio. Fechar os olhos e deixar-me cair. Ser primeiro a vertigem da terraplanagem – um avião. Planar no alto, rasar a superfície: os rios, os mares, as planícies e as montanhas. Rasar as searas, rasar as cidades grandes e os países longínquos. Aproximar-me num sopro, ganhar altura, deixar-me cair outra vez. Eu no quintal dos meus avós em Lisboa – brincar às floristas – hortenses, margaridas, jarros, jasmins. Sentar-me debaixo da estufa com os cadernos de escrever – os xuxus dependurados num aceno. Entreter-me a tirar as lesmas dos tijolos que separavam os canteiros – o canteiro dos morangos o meu preferido, o canteiro da salsa, da hortelã. Lesmas gigantes nas noites de calor. Esperar que o meu avô regressasse do serviço para regar o quintal. À noite o meu avô acordava depois de ter descoberto os cinco tostões. Páginas e páginas de contas e o meu avô, dias a fio, à procura de cinco tostões. Páginas e páginas de contas de fábricas que deveriam bater certo e contudo cinco tostões. Dias em que cinco tostões perdidos nas folhas, escondidos por detrás das linhas dos papéis e o meu avô a acordar a meio da noite:
– Já dei com o gato – e apontar a revelação num caderninho.
O cérebro do meu avô feito de aritmética. A minha avó – “o avô faz contas até a dormir”.

Ganhar altura outra vez. Morreram-me quase todos os que me tinham amor incondicional. Ganhar altura de novo, deixar-me cair – uma voragem-terraplanar. Mãe. Os laços que me ancoram à vida em que fui o que sou. Um dia encontro-me criança outra vez – eu plena. A minha mãe levando-me pela mão em direcção a casa. A minha casa – morreram-me quase todos os que me tinham amor incondicional. Tanto de mim pelo caminho –arrumo-me aos bocados, colo peças, refaço sentimentos.

Na noite em que o meu pai morto, perdi realidade corpória. A Rosário –  ao amanhecer dessa noite, na igreja – “tens menos cinco kg do que ontem”. A questão da vida.  Existir na certeza do desaparecimento. A morte enquanto tragédia, enquanto desamparo. Eis-me face à morte:  desamparada no sofrimento de estar viva e conscientemente só. Dar voltas sobre a solidão – não bem solidão mas a consciência de que sozinho, por não haver outra forma. A amputação da integridade do ser, a amputação da conservação – em todas as mortes, em todos os abandonos, em todos os desaparecimentos, em todas as injustiças, em todas as traições, a amputação da conservação. A vida advém da capacidade reconstruir e conservar.

O equilíbrio.

Em todas as tragédias há o humano desamparado no seu sofrimento de estar vivo e conscientemente só. Arrumo-me há mais de uma década, aos bocadinhos, dou-me forma – colo-me peça a peça, enfeito-me por dentro, ensaio um sorriso, encaixo os ossos das ancas, faço-me resistência. Num carnaval de criança, quis disfarçar-me de céu. Um tule azul Celeste, uma meia Lua na cabeça, estrelas douradas sobre as vestes. O equilíbrio – contar as estrelas, saber que sou todas elas. A voragem das noites, dos dias, o tempo do espaço e o espaço do tempo. Um dia dissolvo-me no universo, rodopio internamente a ganhar velocidade, saio pelo topo da cabeça e faço-me pó de estrela , pó de céu, pedacinho encantado de lua.

Estar neste mundo mas não ser deste mundo. Morreram-me quase todos os que tinham por mim amor incondicional. O que me prende à vida são os laços – só o amor nos salva. O equilíbrio. A vida tem, em si, a promessa da tragédia – o esforço de vida é o esforço da felicidade, é o esforço da transformação da dor em brilho e em luz. A tristeza traz-me frio. Um dia experimentei a raiva e as lágrimas ácidas que queimam os olhos. A raiva consome, esvazia os olhos de vida e torna baça a pele. Felicidade é trabalhar a raiva, transformar a ira e apaziguar o coração. Felicidade é uma borboleta no peito e haver esperança, é sermo-nos bastantes enquanto sustentação, é não nos deixarmos ficar. Felicidade é o desafio que se coloca para lá do ponto limite – abrir asas e voar. Felicidade é tranquilidade e disciplina, é libertarmo-nos de amarras por dentro. Felicidade são os balões amarelos que o Miguel leva para a escola. Felicidade é ir buscar os ovos ao galinheiro enquanto o meu avô trata de assuntos, na casa do fundo do quintal. Felicidade é esperar os meus pais à janela, contar-lhes os passos, ouvi-los entrar. Felicidade é ouvir a minha avó e admirar-lhe a compreensão sobre o lugar das pessoas na vida. A minha avó, uma maestrina de existências. Celeste Hortense. Felicidade é poder continuar a disfarçar-me de céu. Felicidade é fortalecer-me, é viajar de balão, é conter o medo e o sopro do vento, é resistir às intempéries, é saber mergulhar numa onda gigante, é ser uma menina fada numa noite estrelada.

 

Existir em Azul Celeste Claro e uma lua na cabeça.

A redenção

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A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. As pessoas e as circunstâncias das pessoas e alguma coisa nelas que nunca soube explicar mas que sempre me provocou uma espécie de dor ou um sufoco – um amarfanhar de mim que apenas experienciava sem lhe conhecer a natureza ou a origem ou o intuito.

A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância, existiu sempre associada a um imperativo de aconchego  – o meu quarto e a existência de livros e música e lápis e papel – recolher-me no quarto e aquietar-me na almofada ou pintar desenhos a lápis de cor ou ler os meus livros ou pegar nos cadernos e por-me a escrever. Aprender a pensar tentando encontrar a palavra certa para o pensamento, a palavra que descreve o  universo que vem do sentir- escrever como forma de dar forma e aí me resguardar.

Em criança também fazia bonecas de trapos – desenhava-lhes os fatos nos tecidos, recortava-lhes o corpo e enchia-as de algodão. Cosia-as, depois, antes de lhes construir os cabelos em lã. Pintava-lhes os olhos, o nariz, ensaiava-lhes um sorriso. Uma boneca chamada Leila, que me acompanhou tempos fora – as calças  em verde alface, a camiseta de flores. A boneca Leila a servir-me de companhia e eu alegre com isso. A boneca Leila nunca me deu vontade de chorar e o boneco André apenas me afligiu quando teve um problema no botão que lhe permitia rodar o pescoço. O boneco André era bastante meu amigo e cordato e não me fazia sentir mal com falhas que não eram minhas.

Ao contrário da boneca Leila e do boneco André, as pessoas especializam-se em fazer surgir nas outras uma pontinha de culpa por fraquezas que são delas. Ao contrário daquilo que sempre ensinei à boneca Leila e ao boneco André, as pessoas crescidas não são todas adultas e responsáveis e sapientes de todas as coisas que são importantes. As pessoas crescidas são, muitas vezes, crianças caprichosas que cresceram e que por via do crescimento se presumem grandes e sérias. A grande diferença entre o que fui em criança e o que sou no tempo presente é que hoje consigo identificar a origem da sensação que desde sempre me acompanha:  aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é a agressão – expressa ou latente, nas suas palavras e nas suas acções. Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é o ímpeto e a pressa e viverem cheias de coisas que não servem de alegria para ninguém. Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar é a rudeza dos modos e a dureza do coração.

Aquilo que nas pessoas me dá vontade de chorar vem de longe  – na cabeça das crianças os adultos não falham, pelo que, se falham com elas é porque elas os levam a falhar. Criança nenhuma concebe que os adultos que cuidam de si possam ter fragilidades de todo o tipo – as crianças necessitam de quem faça de escudo entre elas e a vida, entre elas e o mundo, pelo que os adultos são fortalezas inquebráveis, não falham : as falhas vêm sempre das crianças e com as falhas, a culpa.

A sensação que me acompanha, de forma mais profunda, desde a infância é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. As pessoas e as circunstâncias das pessoas e a facilidade com que educam para a culpa ao invés de educarem para  a possibilidade de perdoar e para o pedido de perdão. As pessoas educam para a culpa e as crianças são os melhores alvos dessa educação: nenhuma criança concebe que os adultos que cuidam de si tenham falhas, logo, perante tudo o que corre mal, a culpa é sua. Educar as crianças para as suas falhas e para o medo de errar é educar pessoas para a defesa e para a agressão.

Talvez o melhor de nós seja aquele que se concentre em fazer florescer o melhor lado dos outros ao invés de se demorar nas suas falhas e fraquezas, talvez o melhor de nós seja aquele que, ao invés de apontar a fragilidade do outro, trabalhe sobre si, talvez seja aquele que, sabendo-se fraco porque humano, aceita a sua condição mas não desiste de se transformar. Talvez o melhor seja aquele que não se aquieta, aquele que se sabe além.

A sensação que mais profundamente me acompanha desde a infância, é a de que as pessoas me dão vontade de chorar. A grande diferença entre a minha idade de ontem e a minha idade de hoje, reside na capacidade que hoje detenho de identificar a natureza dessa sensação – as pessoas dão-me vontade de chorar porque ainda não as aceito profundamente e por isso ainda me quedo ali, no lado mais sombrio que mostram, à espera que um dia mudem.

Avisar a boneca Leila e o boneco André de que é ao contrário que as coisas se fazem: perante a fragilidade desenvolvamos força, perante a alteridade desenvolvamos tolerância, perante a agressão desenvolvamos capacidade de perdão. Avisar a boneca Leila e o boneco André que isto leva a vida toda e que, por isso, o melhor é pormo-nos os três a caminho.

Do outro lado do espelho

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No quarto da casa dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe. O retrato da minha mãe era grande e não bem a preto e branco mas da tonalidade diferente que é a evocação das cores nos retratos antigos. No quarto dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe e foi na demorada contemplação desse retrato que descobri a minha relação com o sagrado.

No quarto da casa dos meus avós havia, ao lado do retrato da minha mãe, sobre a cómoda, uma caixa de música de corda onde uma bailarina e o som de uma música bela  – creio que um pouco triste.  Foi na experiência dessa música e na contemplação do retrato da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado.

A minha mãe teria uns quinze anos, dezasseis anos – talvez – nesse instante captado,  e sorria um sorriso leve. O cabelo era curto e ondulado, o vestido era branco às bolas e havia na minha mãe a expressão de ideia romântica . No olhar da minha mãe, uma certa adequação à vida ou a adequação bastante para uma existência tranquila. No olhar da minha mãe, a força e a vitalidade das coisas que existem, uma certa perfeição –  foi  da consciência da finitude dessa perfeição de existir que descobri a minha relação com o sagrado.  

Ao contrário do medo, que é sempre relativo a alguma coisa, a angústia advém da experiência da antecipação do nada. Foi da consciência da antecipação do nada, da finitude humana, do impensável que é o não-ser – mais no mundo da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado – o sagrado nessa forma última, transcendente à matéria, ao corpo físico,  o sagrado que consiste em construir com a minha mãe uma relação fundada em laços que contém a imortalidade.

No quarto dos meus avós, o retrato da minha mãe e a experiência tacteada, intuída, de que o problema último, o problema essencial, é posto pelo conflito do amor e da morte.  Talvez porque naquele retrato  um brilho, um certo mistério, talvez porque uma correcta adequação, uma eventual promessa, talvez porque calor lá fora – e a certeza da transcendência para que não morra nunca a minha mãe. O sagrado na minha mãe e a certeza de que a minha mãe não morre nunca, nem hoje, nem sempre, nem nunca mais.

Reside o sagrado na experiência compartilhada, intocável, fundada no amor verdadeiro. Reside o sagrado na beleza da Natureza, na magia dos lugares, no espaço suspenso, imaterial – que é a parte de nós que se eleva quando nos descobrimos por dentro. Reside o sagrado na leveza e nos dias que são sopro, nos dias que são vento. O sagrado no ânimo que habita os homens, no ânimo que habita as mulheres que, ainda que de joelhos, vergados, se erguem sem sucumbir. O sagrado no extraordinário de haver sol e de haver luz – o sagrado no azul celeste do céu. Encontrar o sagrado no passo primeiro para lá do limite – o sagrado no além da dor humana, na ultimidade que é o mistério de cada pessoa. O sagrado na transformação do homem no além de si, na transformação do homem na parte mais elevada de si. Cumprirmo-nos como pessoas talvez signifique viver de tal forma que nos façamos sagrados para alguém – procurarmos na vida os caminhos que nos levem aos outros, encontrando, primordialmente, o caminho que nos encontra. O sagrado na captação da pessoa pela transcendência de um retrato.

As pessoas sem sagrado esvaziam-se e morrem – as pessoas sem sagrado são corpo que sucumbe.

O sagrado que se diz mãe são luzes de tantas cores brilhando para sempre em todos os mundos – mãe em todas as chuvas, em todos os campos, em todos os mares, em todos os peixes, em todos os céus. O sagrado da minha mãe nas cores – tantas cores – de todos os dias.

É no sagrado de existir que a existência se faz realmente humana.