39 anos ou um tempo sem fim

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Hoje faço 39 anos. Estranho o 3 neste número que me engana, aposto que apenas o 9 está certo. Aos 39 anos as pessoas são crescidas e hão-de sentir-se crescidas, suponho até que tenham um ar sério de quem faz coisas importantes. Aos 39 anos as pessoas discutem assuntos de adultos enquanto guiam os carros – o condutor sério e o do lado do condutor, sério também. O volante num corropio de imponência enquanto eu, cá atrás, conto as árvores que passam e atribuo cores a cada um dos dias da semana – segunda-feira, roxo, terça-feira, amarelo, quarta-feira, verde escuro -.

Aos 39 anos as pessoas chegam a casa e vão fazer o jantar e fazer coisas de pessoa com 39 anos, não vão para o quarto deitar as bonecas e passar a pente fino a colecção de calendários dos jogadores do Benfica. Tenho no chão um gravador de cassetes onde ligo um microfone preto quando me apetece cantar e fazer relatos de futebol. O Sporting perde sempre e o Chalana marca sempre muitos golos. Dentro do meu gravador, o Chalana remata até com os bigodes e as bolas param sempre no fundo baliza: nunca falhou nenhum golo. Às vezes ponho a cassete do Jardim Jaleco no gravador, e fico, sentada no chão, a ouvi-la tocar.

As pessoas com 39 anos não têm mobílias de quarto azuis e brancas nem colam imagens de bonecos nas portas do roupeiro. Ainda agora ouvi o meu irmão passar de mota no corredor, pelo que cuido que o 3 enganado. A minha mãe ouve o “Quando o telefone toca” enquanto faz o jantar. Se acaso, depois da frase, Gemini, corro até à cozinha onde os vapores da panela eléctrica se misturam com as cápsulas amarelas do óleo de fígado de bacalhau. De certeza que os pais das pessoas com 39 anos não as obrigam a engolir cápsulas de óleo de fígado de bacalhau nem lhes enfiam Vidalin goela abaixo. Ninguém com 39 anos é capaz de engolir vitaminas tão amarelas e espessas, estou certa de que isso é uma proeza de criança. Como tomaram Vidalin quando eram crianças, os meus pais não vão morrer nunca, ao contrário do que às vezes acontece com os pais de alguns meninos que encontro na escola. Têm vidas muito tristes, esses meninos, para quem olho com atenção. Como se viverá sem o beijo da noite, sem o saco de água quente colocado na cama? Como se vive sem ouvir os passos serenos do pai andando pela casa, assegurando que a vida está toda no sítio? Como se vive sem a minha mãe em casa, sem a tenda de índios montada no quarto do meu irmão, sem as filas de carrinhos até à porta da rua? Como se vive sem o robot branco que fala espanhol, sem as pistolas com que brincamos todos juntos aos cowboys? O mais sortudo do dia foge no cavalo – um pau com uma cabeça –, os outros arranjam guitas e fogem só com as rédeas.

Se acaso 39 anos, a minha avó certamente que não me acordaria às 8:00 para me dar os parabéns e ser a primeira, sempre a primeira, a oferecer-me o seu presente. E ser sempre Arronches neste dia e eu acabar de receber a minha bicicleta. Se 39 anos a vizinha Ana Mexia não me oferecia uma dúzia de ovos e os meus primos não vinham à minha festa quando chegassem, mais à tarde. Cuido que o 3 um engano, que daqui a pouco o carteiro chega com postais de parabéns dos meus avós de Lisboa, da minha tia de Santarém, dos tios de Campo Maior. Crianças pavorosas soprando velas, evocações de defuntos, tragédias, uma, de cabelo curto e escuro, num parque infantil e por detrás: “À nossa querida Sobrinha” ou o meu avô, no verso de vista dos Jerónimos, “À nossa querida netinha”. Logo à noite o meu pai há-de ser o último a dar-me os parabéns. Uns minutos antes de ser meia-noite, um abraço longo, sempre. Está mais do que visto que o 3 a mais. Capaz de isto ser mais um dos truques do meu irmão, sempre com aquelas suas ideias de fazer números de magia.

(Fotografia de Filipe Flora Reis)

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3 responses »

  1. Pingback: Milady «

  2. Os meus parabens atrasados. Gostei muito de ler os teus últimos post’s. Apesar de serem sobre a tua vida, existe qualquer coisa na tua prosa que evoca sensações sem palavras dentro de mim, um cheirinho do passado que me foge debaixo do nariz, mas que é bom sentir. Para mim é sinónimo de uma escrita que vale a pena ler. Beijin, Igor

    • Obrigada, Igor! No fundo, as vidas parecem-me ser mais próximas em emoções e sensações do que aquilo que somos levados a pensar. As recordações são díspares, sim, mas as memórias das sensações de conforto, de protecção e de acolhimento, a nostalgia do irrecuperável, talvez não sejam assim tão diferentes de uns para os outros ou, em sentido mais estrito, de mim para ti :-). Beijo.

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